[Publicado do "Diário do Minho" de 2000.01.24]

Memórias Orais
Manuel Jacinto Sarmento

1. A ASPA, em coiniciativa com a Associação Cultural Francisco Sá de Miranda, e com a colaboração do Museu Nogueira da Silva, organiza um novo ciclo de Memórias Orais, a iniciar, já no próximo sábado, dia 29 de Janeiro, desta vez com a presença do bracarense Manuel Pereira Barbosa, e com o tema do Desporto no meu tempo. 

As Memórias Orais são charlas ou conversas, desenvolvidas de modo informal e coloquial, sobre um tema específico, a partir das narrativas sobre Braga de outros tempos, trazidas ao conhecimento ou à recordação dos intervenientes por um ou mais bracarenses que, por terem vivido intensamente ou intervindo de modo destacado em qualquer área social, estão especialmente disponíveis para partilhar a sua experiência. Começamos com a área do Desporto, como leitmotiv para uma conversa de rumo livre, com ligações múltiplas e direcções que só dependem do desejo e da memória dos participantes, mas onde estarão certamente presentes as estórias da juventude de outras eras, os seus modos de lazer e as suas instituições, especialmente o Sporting Clube de Braga, de que o nosso convidado foi ilustre Presidente. Outros temas estão já em preparação e terão oportuna e atempada comunicação: a escola e a educação, as mulheres e as suas vivências noutras eras, a resistência, etc. 

2. Uma cidade não é feita apenas dos edifícios, das ruas e passeios, dos jardins e espaços verdes. Antes de tudo o mais, o que faz as cidades são as pessoas que nelas habitam. No convívio que estabelecem entre si, nos hábitos de reconhecimento, nos rituais, nas cerimónias, nos protocolos de comunicação que estabelecem, os seus habitantes constroem a cidade, o seu ethos e a sua cultura. Desta participa também a relação que estabelecem não apenas uns com os outros, mas também com o espaço, que animam e a que atribuem sentido. É por isso que o património edificado não é só feito das pedras que o erguem ou das madeiras que o decoram: é igualmente feito da memória acumulada que as gerações transportam da relação estabelecida pelos homens com esses edifícios e espaços. É por isso, também, que a destruição do património não é apenas uma agressão a monumentos, casas e a sítios, mas a violação da memória acumulada. 

3. Mas a memória é também ela própria património. Diz-se de alguns povos (aliás, impropriamente), que não têm história, não pelo facto de não terem atravessado o passado e vivido colectivamente as vicissitudes políticas, os eventos económicos e os êxitos acontecimentais que fazem a história de um povo, mas por não terem registo _ senão através da imprecisa saga oral que atravessa o nevoeiro dos tempos, combinando factos com a lenda _ dos eventos do passado. Não é o caso de Braga, nem do povo bracarense. Ao longo dos séculos, muitos foram os testemunhos escritos que registaram a história da cidade. Mas, porventura, aqueles que mais vivamente deram conta das cores impressivas da realidade, foram os registos dos escritores, que, nas suas narrativas ou nas suas crónicas, amiudadas vezes fizeram do pormenor do quotidiano a expressão intensa de um modo de viver na cidade. Os registos das vilegiaturas no Bom Jesus do Monte, de Camilo Castelo Branco, ou as procissões da Semana Santa, de Antero de Figueiredo, entre outros, constituem um inestimável património bracarense. Recentemente, livros de crónicas de Maria Ondina Braga, de José Manuel Mendes, de Manuel Faria e de José Moreira vieram engrandecer essa memória colectiva. 

A par deste registo escrito, as memórias orais, as histórias que se contam e passam _ quando passam _ para o espólio comum do levantamento dos factos passados, constituem, para além de uma fonte primária desse registo escrito, um dos testemunhos mais importantes sobre a vida em comum nos seus espaços de existência. 

As Ciências Sociais, e não apenas a História, contam, desde há muito (especialmente desde a Escola sócioetnográfica de Chicago, nos anos 30), com a recolha dos testemunhos orais como um dos seus métodos predilectos, especialmente no domínio do que se designa por investigação interpretativa. Esta orientação metodológica conta actualmente com uma renovada atenção e um crescente interesse. Os métodos biográficos, as histórias de vida, o «método das narrativas», as entrevistas não estruturadas, contam-se entre as técnicas e métodos mais usados recentemente na pesquisa em Ciências Sociais. A razão desta renovação da recolha dos testemunhos e memórias orais baseia-se no facto de que as estruturas e acontecimentos sociais são dotados de sentido, isto é, não dependem de uma qualquer inelutável «natureza das coisas», mas são produto da acção social, e esta é sempre reflexivamente empreendida (ainda que não seja sempre necessariamente racional). As memórias orais são, deste modo, portadoras de noções factuais, mas também são depositárias da reflexividade. É essa a razão por que as formas e conteúdos dos registos orais são hoje tão importantes no (re)conhecimento do que somos e da cultura plural que nos faz. 

4. Também essas memórias deveriam ser importantes na regulação da cidade. Conhecer o passado é uma condição fundamental para que ele se possa renovar. Uma álea de árvores de que se conhece a sombra, uma paisagem que se habituou a admirar intacta, uma praça cuja amplitude se alcança de um só olhar, um quarteirão que não é maculado pelo horror estético, uma fonte onde se ouve o interminável curso das cristalinas águas _ tudo isto «educa» o olhar e os sentimentos de gerações e topografam o espaço do reconhecimento comum. Não é, portanto, lícito que isso seja ignorado no governo das cidades. Não há cidade sem memória, assim como não há civilidade sem laços colectivos fundados numa cultura comum, nem há esperança de renovação e modernidade sem um sólido sentimento de comunidade urbana. 

O Poder que temos na cidade é, no entanto, estranho a estas considerações.
A regulação assente na reflexividade colectiva cedeu lugar à desregulação urbana e à iniciativa desgovernada do mercado imobiliário. A preocupação com a preservação e renovação patrimonial foi despromovida e substituída pela ocupação plena do espaço, sem regra nem horizonte, e pela cedência a apetites primários, em nome dos quais se afirma fazer uma «governação para o povo». Algumas reconstruções no centro histórico da cidade não são suficientes para apagar a imagem dominante de uma política urbana culturalmente
indigente, estrategicamente submetida aos apetites de especuladores e politicamente desprovida de sentido equitativo ou de vontade de promoção das condições de uma cidadania urbana moderna. 

5. Uma cidade é, porém, também o que resiste à usura dos tempos, nomeadamente os mais recentes. Braga é uma cidade bimilenar. Recolher e divulgar a memória dos que mais intensamente a viveram no passado próximo é seguramente, para além do prazer certo de quem se reencontra nas estórias que são contadas, um momento de afirmação da vitalidade de padrões de cultura e de estilos de vida que são feitos da ligação dos bracarenses com a sua Braga. 



Associado n.º 206 da ASPA