[Publicado do "Diário do Minho" de 2000.02.07]

Eugénio Lapa Carneiro: um homem da cultura
Mª Helena Carmona Araújo

Viver 
É, para mim, duvidar, 
Desvairar, 
Interrogar, 
Procurar-me, 
Torturar-me, 
Agarrar fumo nas mãos, 
E acenar a uns meus irmãos 
Que sinto perto, e não vejo 
Por causa da multidão...

José Régio 



Lapa Carneiro subscreveria, certamente, estes versos. Conheci-o bem e não duvido que, ao lê-los, lá no íntimo, muito sinceramente, pensaria: «Aqui estou eu retratado. Tal e qual!». 

Lapa Carneiro vivia uma filosofia muito própria, muito especial, muito cartesiana, de que, avisadamente, chegava a duvidar, mesmo que os elementos que, aos poucos, ia juntando a ninguém levantassem dúvidas. Duvidava metodicamente sempre com espírito atento e lúcido, como é próprio dos homens inteligentes e cultos. E quantas vezes viveu momentos de desvario intelectual, interrogando-se e interrogando os que o rodeavam. Andava sempre à procura de descobrir quem era e como era e, creio, nunca conseguiu alcançar esse objectivo. Era um descontente consigo próprio, exigindo sempre mais e mais das suas excepcionais qualidades e por isso se torturou, se deixou torturar até à exaustão. Procurou agarrar o fumo, o que, naturalmente, nunca conseguiu, porque o seu espírito fechado e a sua particular maneira de ser não lhe deixaram portas abertas para ver, no meio da multidão, os que o admiravam e sempre o apoiaram ao longo do seu processo vivencial. 

Lapa Carneiro procurou sempre mais e mais, entregando-se à investigação, ao saber, à verdadeira cultura que tem a sua génese no Povo, aquele que vive o dia-a-dia pensando no amanhã, sempre problemático e inseguro. 
Era um homem extraordinariamente culto, direi mesmo, um erudito, porque, para além dos seus imensos conhecimentos teóricos, tinha a noção plena das noções práticas da vida.
Procurou sempre tornar a cultura uma verdadeira realização dos valores, distinguindo de forma suficiente a cultura das ciências e conhecimentos que lhe servem de suporte. Para ele, a cultura realizava - como realiza - valores. 

Conheci Lapa Carneiro na década de 60, na Escola Industrial e Comercial de Barcelos, onde ambos éramos professores - ele, de Geografia e Ciências Naturais; eu, de Inglês, Português e História. Dentro em pouco, tornámo-nos amigos, talvez porque houvesse centros de interesse comuns: apreciávamos as coisas simples, conhecíamos bem o palpitar do Povo, admirávamos os mesmos escritos e éramos apaixonados por Fernão Lopes. Recordo, com imensa saudade, os bons momentos que vivemos naquele estabelecimento de ensino, numa época em que professores e funcionários se contavam pelos dedos e conheciam os alunos como a palma da mão. Quantas vezes lembro as horas de lazer naquele edifício onde, curiosamente, nasceu o Museu de Olaria, do qual Lapa Carneiro foi fundador e Director! Já nessa época, Lapa Carneiro recolhia, religiosamente, peças de olaria, as mais díspares, que conseguia acomodar, como que por artes mágicas, no Museu de Cerâmica Regional Portuguesa, numa sala exígua situada sob os Paços dos Condes-Duques, e a que num artigo interessantíssimo publicado num dos Boletins, chamou «museu espartilhado». 

Foi sempre um homem inconformado, à procura de si e, seguramente, de quem o compreendesse até ao mais íntimo do seu ser, nunca o conseguindo. Entregou-se de corpo e alma ao seu maior prazer - a investigação. Queria sempre descobrir, desvendar, interpretar até ao mais pequeno pormenor os segredos do barro, moldado por mãos simples, desconhecidas tantas delas, mas cheias de criatividade e de entrega total.
Nunca foi um homem popular, no sentido vulgar da expressão, mas alguém que soube auscultar de perto o bater e o sentir do coração do Povo que do barro informe cria maravilhas. 

Perdi um Amigo - mais um - e a Cultura Portuguesa perdeu um ilustre e brilhante etnólogo, do grupo dos que passam despercebidos ao grande público, mas muita falta fará para tornar mais límpidas, atractivas e acessíveis as raízes populares desta Nação secular a que todos, orgulhosamente, pertencemos. 
Barcelos - a quem tanto deu tão discretamente - tem o dever de prestar a justa e merecida homenagem ao Homem que deu muito do seu corpo e da sua alma a um dos pólos da cultura que possui: o Museu da Olaria. 

Eugénio Lapa Carneiro (Póvoa de Varzim, 1929 - Lisboa, 1999): foi o fundador e o primeiro director do Museu de Cerâmica Popular de Barcelos, sem dúvida alguma o museu onde está recolhida a mais importante colecção de cerâmica popular portuguesa. Escreveu vários artigos sobre cerâmica popular e outros temas de etnologia portuguesa de que destacamos: 

O Museu de Cerâmica Popular Portuguesa (1969), Donde vem a confusão entre Louças de Prado e Louças de Barcelos (1962); Empedrado. Técnica de decoração cerâmica (1989); Encrespado. Técnica de decoração cerâmica (1989). Os lenços da mão bordados (1963); Testamentos que fez um galo (1963); Cinco cartas de amor em verso (1982).
Foi o fundador e director da revista «Olaria» (1969).» 



Associada n.º 168 da ASPA