[Publicado do "Diário do Minho" de 2000.03.20]

As colunas da igreja do Bom Jesus * - 2
Eduardo Pires de Oliveira

Vimos no último Entre Aspas as dificuldades que os caminheiros tiveram para trazer as colunas da fachada de uma distância que não ia além de uns dois, no máximo três quilómetros.
Sentimos o cheiro intenso do suor de homens e bois, a chiadeira das rodas dos carros queixando-se do peso excessivo das pedras. 
Soubemos da admiração da cidade, estivemos também na berma do caminho a incentivar bois e homens, a dar-lhes malgas de vinho e cuias de água. 

Mas… 
Mas o problema não estava totalmente resolvido: as colunas não serviriam de nada estendidas no chão! O templo não ficaria completo se as não tivesse! 
Havia então que resolver o problema. Que fazer? 

Teria sido mais simples se os mestres de pedraria tivessem estado em Lisboa no momento em que foi içada a estátua equestre do rei D. José, se conhecessem as máquinas e apetrechos que foram utilizados. 
Claro que o problema não era o mesmo; mas não deixava de haver algum paralelismo. 

Que fazer? Como é que haveriam de ser içadas? 

Acredito bem que os mesários e o mestre responsável dormiram mal durante alguns dias. Até porque não queriam cortar as colunas. 
Essa seria a situação mais fácil, mas era de todo descabida. Então para que é que tinha havido tão ingente esforço para as trazer inteiras? 
Claro está que também não as queriam ver furadas, também não fazia sentido… 
Depois de muito matutar, depois da mesa da irmandade ter ficado em grande consternação pois se tinha cansado em procurar dos professores de arquitectura, curiosos e mestres pedreiros, conduzindo estes ao Santuário, o mestre responsável pelos trabalhos, António José Lopes, descobriu a almejada forma para as colocar no sítio em que todos os queriam ver. 

Deveria ser feita uma espécie de prisão de madeira que prendesse a coluna no meio, toda chapeada, e com quatro argolões nos quatro lados, e nas costas da mesma se devia furar para meter um torno de ferro que a não deixasse correr acima, e para não correr a dita imprensa pela face da coluna, devia atar-se uma cadeira pela cinta e viesse prender a outro torno de ferro que devia estar quase no fim das costas da mesma, e para maior segurança e prumo, devia levar na cabeça um ferro da grossura de um braço, que se enterrasse pela mesma três palmos abaixo, cujo segurasse pelas costas dela outro torno, e deste ferro devia pender o melhor calabre, e melhor roda, e dos quatro argolões outros quatro calabres e quatro rodas ou sarilhos que deviam puxar com igualdade.

A mesa da irmandade aceitou de imediato a dita ideia e mandou se apontasse tudo o necessário debaixo da inspecção do dito mestre.
No dia 2 de Julho tentou-se levantar a primeira. E, sorte dos deuses [ou do Bom Jesus do Monte], a coluna foi levantada! 
A segunda foi içada passados dois dias. E fez-se então um pequeno espaço de espera, talvez para reflectir e reforçar os cabos que tinham sido utilizados. 
E então no dia 9, como que mostrando que o problema até nem era assim tão difícil, levantaram as outras duas! O génio do homem tinha mais uma vez vencido. 
O templo do Bom Jesus do Monte poderia ufanar-se de ter umas colunas tão possantes e tão belas! 
A pedra onde foram arrancadas não teria razão para se lamentar se o pudesse fazer - porque as suas «filhas» estavam ali a receber a admiração de todos! 

Deixemos aqui, de novo, as descrições que retiramos do livro das actas. Lembramos só que é o mesmo volume que já demos a conhecer no texto anterior, nos fólios imediatamente sequentes. 
Termo em que se faz menção do ajuste das quatro colunas e paga dele por se acharem já as ditas colunas no santuário juntas a obra, e resolução que houve para se fazerem os aprestes para se levantarem e se mandou pagar ao mestre pedreiro o cabo que se lhe consumiu, na primeira condução das colunas… 

Mais se propôs era necessário fazerem-se alguns aprestes para o levantamento das colunas, bem assim eram um calabre bem grosso, e seguro, para poder sustentar o excessivo peso das referidas colunas e também uma roda, e varas, e como estava presente o nosso mestre da obra, e disse que na Páscoa, ou antes dela pretendia se levantassem as ditas colunas; por essa razão se deu faculdade aos nossos companheiros… para que cuide nos ditos aprestes com toda a segurança e equidade. Foi mais proposto pelo dito mestre pedreiro que se lhe consumira um cabo na condução da primeira coluna, e que valia 6$500 reis, e ponderado por esta mesa o dito prejuízo convieram em que se lhe pagasse… 

Também foi proposto que o nosso mestre da obra António José Lopes tinha achado uma ideia ou modo para se prenderem e segurarem as colunas perpendicularmente quando se levantassem que por estarem já lavradas e se lhe não deixarem uns morros ou cabeças que sustentassem as cadeias e calabres para se subirem tinha posto esta mesa em grande consternação, pois se tinha cansado em procurar dos professores de arquitectura, curiosos, e mestres pedreiros, conduzindo estes ao Santuário, alguma ideia, que não (à margem: fosse a de serem furadas) pela fronteira se com efeito depois de um devoto e curioso ter feito um modelo em pau dando algumas ideias de prisão, que se não acharam suficientes pelo enorme peso delas, ultimamente disse o nosso mestre se devia fazer uma imprensa de pau que prendesse a coluna no meio, toda chapeada, e com quatro argolões nos quatro lados, e nas costas da mesma se devia furar para meter um torno de ferro que a não deixasse correr acima, e para não correr a dita imprensa pela face da coluna devia atarse uma cadeira pela cinta e viesse prender a outro torno de ferro que devia estar quase no fim das costas da mesma, e para maior segurança e prumo, devia levar na cabeça um ferro da grossura de um braço, que se enterrasse pela mesma três palmos abaixo, cujo cadilhace (sic) pelas costas dela outro torno, e deste ferro devia pender o melhor calabre, e melhor roda, e dos quatro argolões outros quatro calabres e quatro rodas ou sarilhos que deviam puxar com igualdade, e logo esta mesa abraçou a dita ideia e mandou se aprontasse tudo o necessário debaixo da inspecção do dito mestre,… 

E, finalmente, 
… ai se lembrou que como se tinham levantado as colunas pelo modo supra, a primeira no dia 2 do corrente mês e a segunda no dia 4 do dito, e a terceira e quarta coluna foram levantadas ambas em um dia que foram 9 do corrente mês de Julho, e atendendo esta mesa ao excessivo trabalho que teve o nosso mestre pedreiro em cogitar os meios, e ideia, e engenho para elas se levantarem, a felicidade que houve que causou admiração a todo o povo que se juntou, pois não sucedeu a oficial algum o menor perigo, e por isso houve um alvoroço, e alegria, e grande contentamento em todo o povo, e em atenção ferido a respeito do dito mestre pedreiro, e pequeno salário que se lhe dá se mandaram dar de alvissaras 6$400 réis, que se lhe levarão em conta ao nosso tesoureiro… nas que der por assim se vencer nesta Mesa.» 

Não acredito que José Saramago tenha, alguma vez, conhecido estes textos. Mas também me não custa muito a crer que haja outros semelhantes quer na Biblioteca de Mafra, quer em outro qualquer arquivo público. 

O «Memorial do Convento» não é só um romance fabuloso pelo excepcional poder de efabulação do seu autor. É, também, uma das obras mais admiráveis pela verdade histórica que encerra. 

Tenho a certeza que José Saramago fez um trabalho de pesquisa muito profundo porque os seus ambientes não são falsos no que respeita à História. Claro que são recriações de situações possíveis; mas estas recriações só foram feitas após muitas e muitas horas de leitura, de cansar os olhos em livros e livros sobre D. João V, sobre o século XVIII português, sobre o Homem barroco. Seria bem interessante que ele nos dissesse um dia não só quais foram as suas fontes de inspiração mas, também, quais foram as suas fontes de informação. 

E o leitor gostou daqueles velhos textos? Ou achou que foi História a mais? Quererá dar-nos o prazer de nos comunicar a sua opinião? Muito obrigado.



Associado n.º 7 da ASPA

* Os artigos publicados agora e no «Entre Aspas» de 20.03.2000 tinham o título genérico de «A pedra-mãe do Convento de Mafra e de José Saramago e as colunas da Igreja do Santuário do Bom Jesus do Monte», que não foi possível conservar.