[Publicado do "Diário do Minho" de 2000.06.12]

Homenagem a Robert C. Smith
Henrique Barreto Nunes

Na galeria principal da Fundação C. Gulbenkian, em Lisboa, foi inaugurada no passado dia 11 de Abril uma exposição dedicada a Robert C. Smith. 
Tendo como comissário o académico brasileiro Dalton Sala, esta exposição, já parcialmente apresentada na quarta Bienal Internacional de Arquitectura de São Paulo, é um acontecimento de grande relevo que evoca e homenageia o trabalho do investigador e historiador de arte norte-americano Robert C. Smith (19121975). 
Smith é um pioneiro do estudo científico da arte portuguesa e brasileira, sobretudo dos séculos XVII e XVIII, à qual dedicou grande parte da sua actividade de investigador. 

À Fundação Gulbenkian, que foi para Smith (como para tantos outros) uma espécie de Mecenas, subsidiando ou encomendando-lhe diversos trabalhos, legou o investigador norte-americano o seu espólio científico: milhares de documentos, que constituíam material de base para os seus estudos realizados ou projectados manuscritos, simples apontamentos, fotos, recortes, desenhos, livros. 

Foi este espólio, já devidamente inventariado e tratado e disponível para consulta no Arquivo de Arte da FCG, mais os seus livros e artigos, que esteve na base da magnífica exposição para a qual aqui chamamos a atenção. 
O material exposto é enquadrado por uma invulgar cronologia, que relaciona os dados biográficos do historiador com acontecimentos marcantes, nomeadamente no campo cultural, que na América, no Brasil e em Portugal foram ocorrendo durante a sua vida. 
A exposição propriamente dita debruça-se sobre os temas artísticos mais importantes a que Smith dedicou a sua investigação. Documentos e fotografias do seu espólio, mas também peças escultóricas e pinturas, mobiliário e maquetes, gravuras e manuscritos originais, cedidos por museus, bibliotecas e arquivos, igrejas, confrarias ou mosteiros dos três países referidos ilustram de maneira brilhante e elucidativa o percurso do historiador de arte, os seus interesses e as suas descobertas. 

Portugal, e, em especial, Braga, como não podia deixar de ser, ocupam lugar de relevo no corpo da exposição já que Smith dedicou à arte barroca do norte do país grande atenção desde o início da década de 60, percorrendo não só toda a região, indo a lugares pouco conhecidos onde um retábulo barroco podia captar o seu olhar conhecedor, como também passando longas horas em arquivos, à procura de documentos que justificassem uma autoria (tantos nomes desconhecidos revelou!), uma encomenda ou a atribuição de uma data. 

Se hoje André Soares goza da nomeada que justamente merece, se nos são familiares os nomes de Frei José Vilaça e Cipriano da Cruz, de Marceliano de Araújo ou Agostinho Marques, se a Casa da Câmara de Braga e o Mosteiro de Tibães, o Palacete do Raio e a capela da Falperra fazem parte obrigatória dos itinerários artísticos portugueses, se a talha dourada foi devidamente reavaliada e apreciada, para tal muito contribuiu o trabalho de Robert C. Smith para o seu estudo, divulgação e mesmo protecção. 

Por isso não admira que um dos grandes painéis da exposição seja dedicado a Braga e nele figurem uma planta da cidade desenhada por André Soares, pela primeira vez publicamente apresentada, desenhos setecentistas do edifício da Câmara e da Arcada, grandes fotografias da Falperra, da casa do Raio, de Nossa Senhora da Torre e da Câmara, um quadro de Sequeira sobre a construção do Bom Jesus e muitos outros documentos cedidos por diversas instituições bracarenses.
Pensamos contudo que o Mosteiro de Tibães como centro irradiador da arte beneditina e grande alfobre de artistas, uma das grandes paixões de R. C. Smith, merecia uma referência mais alargada no âmbito deste acontecimento cultural. 

A exposição é enriquecida com um catálogo que apresenta, para além da descrição e fotografias das peças expostas, um conjunto de 15 textos fundamentais sobre a obra de Smith nas suas diversas vertentes, incluindo ainda um artigo sobre o seu espólio e uma exaustiva bibliografia que nos dá a verdadeira dimensão dos trabalhos publicados sobre a arte portuguesa. 
Alguns dos textos são assinados por grandes nomes da história da arte, como H. Wohl, Russell-Wood ou ainda Vitor Serrão, que analisa as relações entre R. Smith e Flávio Gonçalves, no âmbito do estudo do barroco luso-brasileiro. 

O norte de Portugal está bem representado no conjunto destas contribuições para o estudo da obra de Smith, com textos em que se aborda a atenção dedicada ao Porto (J. J. Ferreira Alves), os estudos sobre a talha (Natália Marinho F. Alves), a (re)descoberta da arte do Mosteiro de Tibães (Aurélio de Oliveira, com fotografias inéditas), a revelação da até então desprezada arte da Braga barroca e rócócó (Eduardo P. Oliveira) ou a maneira como a imprensa portuguesa apreciou o seu trabalho (H. B. Nunes). 

Enfim, mais uma realização notável da Fundação Calouste Gulbenkian que os bracarenses verdadeiramente interessados na história da sua arte, do seu património cultural e na sua incontornável influência na arte brasileira de Setecentos - ainda por cima no ano em que se comemoram os 500 anos do descobrimento do Brasil - não devem ignorar e que, por isso, aconselhamos vivamente a visitar, bem como a ler atentamente o catálogo da exposição, aliás já acessível na Biblioteca Pública.



Associado n.º 6 da ASPA