[Publicado do "Diário do Minho" de 2000.07.10]

Extensão da linha de caminho de ferro
Luís Costa

No livro de 1844-1869, «Correspondência expedida - Representações da Câmara de Braga», encontrei a fol. 38 e seguinte a referência do pedido de instalação do Caminho de Ferro que, partindo do Porto, se dirigiria até Valença, dando assim uma ligação entre Portugal e os restantes países da Europa a partir da Galiza. 

Diz essa referência, depois de vários considerandos que «depois de tantas contendas públicas quase sempre estéreis ou fatais à causa pública o povo português compreendeu os seus verdadeiros interesses, as suas verdadeiras necessidades». Após várias intrigas e discussões a que foi sujeito, cabia-lhe agora questionar ele próprio os problemas e controvérsias que directamente lhe dissessem respeito e uma delas, talvez a principal, era o progresso moral e material do País. E um deles era quebrar o isolamento em que as cidades, vilas e aldeias do interior do País viviam. 

Estava já a correr na Europa um surto de desenvolvimento trazido pela Revolução Industrial do vapor, cujo exemplo, vindo da Inglaterra, tinha chegado a Portugal, atrasado como sempre, mas que tinha já dado os seus frutos, primeiro nos transportes, com o lançamento, sob o reinado de Dom Luiz, com a inauguração do primeiro troço da linha de caminho de ferro de Lisboa ao Carregado, e depois do seu seguimento de Lisboa até ao Porto, e ainda depois com a instalação de fábricas, suporte de um desenvolvimento que se pretendia para um Portugal mais moderno que acompanhasse o que no estrangeiro se estava a passar. 

Braga, ou a sua população, como importante que já era para a economia minhota, não podia alhear-se a este grande motor do desenvolvimento que foram as estradas de ferro e a nova força motriz que constituiriam um grande avanço para a sua economia. 

Aproveitando esse desenvolvimento, a economia bracarense aumentou pois as máquinas movidas pelo vapor, transformaram as velhas indústrias artesanais em verdadeiros pólos de grande produção, como, por exemplo, a indústria dos sombreireiros (chapéus) e a metalurgia. Em consequência, a cidade de Braga tinha necessidade de conseguir sair do isolamento em que vegetava e, aproveitando os novos meios de transporte, fazer chegar os seus produtos aos mais diversos pontos do País e estrangeiro. 

O isolamento em que vivia a terceira cidade do País, justificava-se na representação que a Câmara dirigiu ao Governo, dizendo que «A indústria sem protecção nem auxílio tem feito importantes progressos. Era mister que novas e fáceis vias de comunicação pusessem os povos em contacto, a abrissem ao comércio as necessidades e riquezas do Pais e trouxessem aos mercados os valiosos produtos que a dificuldade de transporte nem sequer tem deixado extrair em muitos lugares deste fértil solo. 

A opinião pública manifestou altamente esta necessidade e por toda a parte se vê o braço do operário satisfazendo a tão justa indicação. As nossas comunicações internas concluem-se com uma vontade e cuidado incessante, e até não se poupam os meios de ligar o País com o resto da Europa dando ao comércio o movimento rápido que as nações cultas tem para si procurado por meio das estradas de ferro. 

Braga é a Primaz das Hespanhas; é a terceira cidade do Reino; é a capital da mais rica e formosa de nossas Províncias e o centro comercial da sua numerosa população. 

Senhor, Portugal já possui uma amostra deste benefício novinto (?), uma linha de ferro está decontada (?) entre as duas cidades do Reino, e consta geralmente que ao Governo de Vossa Majestade vão ser apresentadas diversas propostas para continuação desde o Porto até Valença introncando-a pela Galiza nas linhas férreas da Europa. 

A Câmara Municipal desta Cidade faltará ao seu dever se nesta ocasião deixasse de suplicar a Vossa Majestade, evocando a utilidade e conveniências públicas para esta linha, quando por ventura venha a ser determinada, toque nesta Cidade, ou directamente, ou mesmo por meio de um ramal. 

Braga é a Primaz das Hespanhas, é a terceira cidade do Reino; é a Capital da mais rica e mais formosa das nossas Províncias; e o centro comercial da sua numerosa população. 

Separá-la do grande movimento do mundo civilizado seria uma injustiça que o ânimo de Vossa Majestade não tolera, e por isso a Câmara que, se por ventura foram apresentadas e aceites as citadas propostas Vossa Majestade Se Dignará atender e diferir benignamente esta súplica. 

Deus Guarde Vossa Majestade como todos havemos mister. 

Braga em Sessão extraordinária de 4 de Agosto de 1857. O Presidente Francisco Campos de Azevedo Soares - José Joaquim Soares Russel - Pedro Victor da Costa - João Ferreira Chaves». 

Esta exposição não obteve de imediato resposta mas, pode dizer-se, que foi o embrião para que, anos decorridos, se estabelecesse a ligação ferroviária com a Galiza. Mas um empreendimento destes logo despertou a cobiça de outras localidades que pretendiam que essa estrada de ferro passasse por as suas terras. Assim foram apresentadas ao Governo várias soluções algumas das quais desviavam, praticamente, o sentido da exposição feita em Agosto de 1857 pela Câmara bracarense. Uma delas sugeria até que a linha do Minho passasse por Felgueiras, Penafiel e Amarante. As autoridades bracarenses e as gentes de Braga não deixaram morrer a sua primitiva sugestão e em 14 de Fevereiro de 1865, conforme se lê no «Copiador para Correspondência expedida - Representações da Câmara - 1844/1869», de novo voltam a pedir a instalação da estrada de ferro até Valença, solicitando textualmente que essa ligação não deixasse no esquecimento a cidade Arquiepiscopal. 

Alertados por um boato aterrador, que se tinha espalhado pela cidade de que a linha do Minho não seguiria o traçado estudado seguindo uma directoria que não compreenderia, como ponto forçado, a sua passagem por Braga, logo o Senado Bracarense, nova exposição faz a Sua Majestade, alegando que o traçado que incluía no seu trajecto Penafiel, e os conselhos de Felgueiras e Guimarães, e apenas serviria a Capital do Distrito por um ramal, cidade considerada como a mais importante de toda a Província do Minho, centro topográfico principal de toda esta região nortenha. Deixava assim também a estrada de ferro de lado Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez, uma das mais ricas porções de todo o território nacional. 

No mesmo livro, mas em 14 de Maio de 1866, nova representação é enviada pela Câmara, dirigida aos Deputados da Nação, que por razões de justiça e conveniência, e depois de analisados todos os estudos feitos, devia ser atendido o do hábil Engenheiro Sousa Brandão, possivelmente o mais aceitável e económico porque passaria por terrenos mais planos e não teria de vencer os desníveis, como por exemplo, no caso de vir a Braga e seguir pela Portela do Vade e Serra do Extremo. 

Tendo-se então optado pela passagem por Famalicão, Barcelos e Viana a linha seguiria quase junto ou mais perto da linha da costa e atingiria mais facilmente a fronteira em Valença. Foi então adaptada esta solução que, no entanto, deixou ainda Braga presa no seu isolamento. Inaugurada a linha do Minho em 19 de Agosto de 1872, e depois de construída, no Porto, a Ponte de D. Maria, ficou a estrada de ferro ligada desde Lisboa até à fronteira Norte. 

Braga não descansou, e pediu, e conseguiu, que então ao menos se tratasse de dar uma possibilidade de que a ferrovia viesse até à cidade e, finalmente construi-se um ramal que a partir do Porto, da nova estação da linha do Minho (Nine), chegasse a Braga, o que de facto foi conseguido tendo o ramal de Braga chegado ao Largo das Laranjeiras (hoje Largo da Estação) em 20 de Maio de 1875. 

Mas não se ficou por aqui a acção camarária. Pediu e solicitou que se estabelecesse uma linha para servir o Alto Minho. Para isso chegou a indicar o local para a instalação de uma estação que ficaria colocada em Infias. Não foi avante esta pretensão e as ligações com o Alto Minho fazem-se por sistema rodoviário.



Associado n.º 14 da ASPA