[Publicado do "Diário do Minho" de 2000.08.21]

Braga recupera teares de sedas e damascos
Teresa Lima* e José Manuel Cordeiro**

Com a devida vénia, e por se tratar de textos que importam à salvaguarda do património cultural bracarense que a ASPA preserva e vai recuperar, transcrevemos do «Público», de 18 de Julho corrente, um artigo assinado pela jornalista Teresa Lima e outro pelo doutor José Manuel Lopes Cordeiro conhecido arqueólogo e antigo presidente do Conselho Directivo desta Associação. 

O espólio centenário da velha fábrica de sedas e damascos da «Paramentaria Vasconcelos» de Braga, estava em vias de se perder, como coisa de somenos, mas eis que chega um alerta a que a ASPA correspondeu em pleno, como é seu timbre. O que estava destinado à sucata foi salvaguardado e espera que no futuro possa ser patente ao público, como peça fundamental da sua arqueologia industrial, sempre tão mal tratada e até malbaratada por quem devia proteger estes bens. 

A ASPA orgulha-se de poder desempenhar este papel. 
São os seguintes os textos já referidos: 



«No início do século, o país hesitava entre a tradição e a modernidade, enquanto que, em Braga, as três irmãs Vasconcelos faziam a inveja das senhoras da cidade, ao passear na avenida com os seus chapéus exclusivos. Na altura, o edifício da Rua do Souto, a dois passos da Arcada, havia já sido comprado por 500 mil réis e quatro galinhas em «hasta pública». Foi nesse espaço amplo que se instalaram a fábrica com os teares de sedas e damascos da família Vasconcelos. 

Para cima de vinte anos passados sobre o fecho da fábrica de sedas, os teares (estão registados nove instrumentos artesanais) amontoam-se na sala sem tecto, com teias de aranha, canelas espalhadas pelo chão, pedaços de tecido e silêncio. Na curta distância que separa este espaço da loja da frente, a Rua do Souto vive o habitual vaivém típico da zona comercial. O senhor João, o último artífice dos teares, passa os dias na actual loja da paramentaria, na Rua do Anjo, perdido entre os tecidos, que já não são de seda natural. Nem a empresa pertence já aos Vasconcelos, mas essa é outra história. 


Herança de pais para filhos 

Era chegada a altura do velho José Vasconcelos passar a paramentaria para o filho, que gostava mais dos encantos da vida despreocupada do que do bater constante dos teares. José Fonseca trabalhava desde miúdo na arte de tecer os fios e veio mesmo a calhar para servir de contrapeso à vida solta do Vasconcelos filho. Assim, ficou a chefiar a fábrica. No fim de uma vida de trabalho foi promovido a sócio da paramentaria, que agora é, na sua totalidade, do seu filho Vasco Fonseca. 

As irmãs Vasconcelos divertiam-se a inventar chapéus com os tecidos da paramentaria e a dizer que eram modelos vindos de Paris. Mas também tinham outros dotes. Confeccionavam os melhores fidalguinhos (biscoitos em forma de gancho torcido) de Braga. Além de que eram suficientemente pacientes para costurarem minuciosamente cortinas para sacrários. No enorme edifício da Rua do Souto ouviam-se as batidas das lançadeiras oito horas por dia. 

No final, surgiam quatro metros e meio de seda tecida. Os desenhos das peças eram feitos por um debuxador numa espécie de cartolina picotada, que disciplinava as diferentes cores dos tecidos que vinham da Suíça. 

Os teares manuais «tinham uma certa matemática», diz João Carneiro, o último trabalhador da fábrica. Para montar as lançadeiras eram precisos três homens. Curiosamente, e ao contrário do que acontecia noutras fábricas de tecidos, o trabalho era feito quase integralmente pelo sexo masculino (seis trabalhadores ao todo) que pertenciam à mesma família. Apenas uma mulher tinha lugar na fábrica e desempenhava a função de dobadeira. 

O trabalho de «pernas e mãos» era feito nos teares Jacquards. Hoje em dia são rudimentos com história, que informam sobre o modo como a indústria se foi desenvolvendo. Foi nestes instrumentos elementares que se teceram sedas e damascos, os quais eram depois costurados em alfaias religiosas ou colchas, daquelas que se expunham à varanda em dia de procissão. Era preciso algum tempo de silêncio e paciência para alinhar cinco mil e seiscentos fios num dos teares (oito mil noutro) para tecer uma única peça.
A ASPA - Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural encontrou os teares (que eram reparados pelos próprios trabalhadores) depositados nas traseiras da antiga paramentaria e decidiu recuperá-los como testemunhos de engenhos industriais de uma época. 

A descoberta foi feita em 1980, mas só agora encontraram um marceneiro capaz de desmontar e montar novamente os engenhos. Falta, posteriormente, descobrir um destino certo para expor as máquinas. 


Um miguelista por terras de Braga 

A paramentaria Vasconcelos instalou-se em Braga, em 1840, primeiro na Rua de Santa Margarida e só depois na Rua do Souto. Mas já vinha do Porto, onde iniciou a actividade fabril. Não se sabe quais os motivos da mudança para Braga, embora se possa adivinhar, por uma série de coincidências que dão sentido à história. 

O fundador da fábrica de sedas e damascos, José Vasconcelos, era um rigoroso miguelista. Ao ponto de ter recusado uma comenda de D. Carlos, por as ideias do rei irem contra o conservadorismo extremo do empresário. Por outro lado, José tinha um irmão, João, que era republicano e que, ao que se conta (onde há fumo há fogo…), terá perseguido o mano ao ponto deste ter fugido para França. 

Ora, em 1840, a guerra civil havia terminado e os ventos políticos não eram favoráveis aos tradicionalistas assumidos, em especial se residiam no Porto. Imagina-se que esta terá sido uma das razões da mudança dos Vasconcelos, que, provavelmente não por acaso, escolheram a Braga miguelista e clerical. O melhor possível para a vida pessoal e para os negócios. 

Estas suposições não passam de hipóteses, ainda que seja inegável o êxito que a paramentaria teve na cidade profundamente religiosa, que se prestava, com toda a certeza, ao escoamento do produto. Mas a riqueza dos Vasconcelos residia também no negócio das madeiras, ao que se sabe, a verdadeira causa da fortuna conhecida.
A fama da velha paramentaria respira-se ainda no enquadramento religioso do novo estabelecimento comercial. Ninguém esquece a fábrica que esteve presente nas exposições coloniais do Brasil e do Porto, no Palácio de Cristal. Assim como ficam para a história as dedicatórias reais, aquando de duas visitas a Braga. A primeira de D. Luís e D. Maria Pia e uma segunda de D. Carlos e D. Amélia». 

Teresa Lima 


Opinião 

Património excepcional 


«APESAR de há mais de duas décadas se conhecer a existência deste conjunto de antigos teares Jacquard, nunca até agora tinha surgido a possibilidade de se encontrar um destino compatível com o seu excepcional valor patrimonial. 

Para além da sua antiguidade - três dos teares datam de 1838 e foram dos primeiros deste tipo a entrar em Portugal -, este conjunto de máquinas da antiga fábrica de tecelagem de seda e damascos da «Paramentaria Vasconcelos», vale pelo seu conjunto. Constituem peças únicas em Portugal, com inegável valor histórico e museológico. Mas, para além destas características, permitem a percepção de algo que já não é possível encontrar em parte alguma, nem sequer nos melhores museus europeus da especialidade: a reconstituição, com toda a autenticidade, do ambiente de trabalho de uma oficina de tecelagem característica dos meados do séc. XIX. De facto, as instalações daquela fábrica não sofreram alterações significativas ao longo dos anos em que se manteve em laboração, pelo que não só os teares, mas todo o seu espólio - que compreende outras máquinas, utensílios diversos, cartões perfurados, documentação histórica, etc. -, se conservou até aos nossos dias, proporcionando, com a sua salvaguarda, um importante contributo para o enriquecimento do nosso tão menosprezado património industrial. 

Esta fábrica terá sido fundada no Porto, em 1838, de onde os seus proprietários eram originários, tendo-se estabelecido em Braga dois anos mais tarde, em virtude do ambiente que então se vivia na Cidade dos Arcebispos ser mais consentâneo com as suas posições conservadoras, provavelmente miguelistas, do que com o clima de euforia liberal que a Cidade Invicta respirava desde 1834 e, particularmente, após a Revolução de Setembro de 1836. Aliás, muito mais do que de Braga, esta fábrica era particularmente representativa da indústria de tecelagem portuense, que naquela época era composta por dezenas de unidades deste tipo. 

Neste processo de salvaguarda em que a Aspa desempenhou uma vez mais um papel fundamental, importa no entanto salientar a atitude de interesse e colaboração dos proprietários da fábrica, eles próprios empenhados em conservar a memória desta antiga unidade industrial, bem conhecida na cidade. A Aspa está neste momento a desenvolver um conjunto de contactos para a criação em Braga de um núcleo museológico consagrado à actividade do fabrico de tecidos de sede e de damascos, no qual sejam apresentados permanentemente ao público os teares Jacquard desta pequena fábrica, assim como todo o seu restante espólio.» 



* Jornalista
** Associado n.º 103 da ASPA e perito de arqueologia industrial