[Publicado do "Diário do Minho" de 2000.10.02]

Continua em Braga a "sinistra noite do fachadismo"
José Moreira

É verdade! A destruição patrimonial não pára mais, porque não respeita nada do que individualiza a memória que permite aos cidadãos de hoje aceder a uma determinada época, a um estilo, a um modo de viver, a uma arquitectura que corresponde ao tipismo social de ser e de estar na vida. A construção civil, o pato-bravo emperuado, truculento, novo-rico, de reconhecido mau gosto, mas «progressista», pós-moderno, ousado olhar para o futuro, alia-se tacitamente àqueles que foram eleitos precisamente - supõe-se! - para evitar esta invasão nova dos bárbaros, travestidos de patos-bravos, triunfantes do sentido da história e das grandezas e fraquezas da Arte, da sociologia das migrações e dos fenómenos do retorno e da sua indelével influência nas sociedades - tudo isto antes mesmo que os historiadores estabeleçam a história dos fenómenos - e dessa aliança lícita resultam os lamentáveis e incríveis atentados ao património construído, que exprimem quanto dissemos antes sem a pretensão de esgotar a matéria. 

Em Braga, alegremente, continua a destruir-se o património, objecto de atentados consecutivos e que ficam impunes, apesar de alguns gritos de alarme - como este - ecoarem como protesto vivo e veemente - inconsequente ou não, pouco importa - mas gritado decidida e firmemente contra os chamados «ventos da história». Digam o que disserem, escrevam o que escreverem, alguns «engagés» conhecidos como tais. 

Em Braga, no centro histórico ou fora dele, destrói-se o património com alegre inconsciência. E isto é indesmentível. E isto ofende a nossa sensibilidade e a nossa inteligência. E isto é doloroso. Braga não tem a monumentalidade que os seus XX séculos de história admitiam como possível existir. Isto tem sido observado através dos tempos por eminentes figuras do pensamento, das letras e das artes. As vereações vergadas a uma como que fatalidade atávica - exacerbada sempre pela pressão partidocrática do momento - deliberam destruir mais do que construir com harmonia e beleza. As vereações são de sua natureza efémeras, mas contam com a passividade das massas que vão votar um papelinho nas urnas - que nome horrendo este! - e como que referendam os dislates que os fastos registam. É fácil votar, é facílimo - e por vezes conveniente - meter o papel na urna. O que é difícil e árduo é pensar, é assumir perante a história uma atitude coerente e lúcida de administrar o bem comum. 

Neste preciso momento, a destruição continua, no Largo da Senhora-a-Branca, no que foi o Palacete Matos Graça e o seu jardim, edificado na segunda metade do século XIX. Imóvel que ostentava uma certa monumentalidade - com as limitações epocais de indefinição de estilo - morre agora irremediavelmente às mãos do carrasco invisível, mas omnipresente na malha urbana que herdamos. Esta casa do «brasileiro»1, que documentava exuberantemente uma época, está a ser esquartejada na sua estrutura global e nas excelências da arte que exornavam os seus interiores: pinturas murais que forneciam aos estudiosos motivos para a consideração de estilos e gostos epocais, estas devidas ao artista bracarense Vicente José Silva (atesta-o o investigador Eduardo Pires de Oliveira), e os magníficos tectos em gesso que estão a ser irremediavelmente perdidos para a memória colectiva (afirma-o o investigador Luís Costa). Segredam-me que um vereador, acometido de pruridos de historiador de arte, teria declarado que aquelas pinturas não têm valor artístico relevante, o que, se for verdade, é ousadia inaudita e evidente falta de senso comum. Mesmo que a asserção fosse correcta deveria ser atestada por um reconhecido especialista e não por uma das «sentinelas» que a sociedade elegeu para a defender destes amadorismos iconoclastas, para decidir em seu nome o que importa salvar em nome do bem comum. E o valor documental das pinturas não faz sentido ou faz? É com estas mentalidades que as ameias estão desguarnecidas de «sentinelas» vigilantes e é por aí que o «inimigo» entra e faz das suas. 

Numa sociedade em que tudo se vende e tudo se compra, as instituições devem harmonizar este jogo, que tende, se isso não for feito, a transformar-se numa evidente selva. Em Braga este jogo é por demais claro. A autarquia não tem sido o desejado travão ao tumultuário degladiar dos interesses que estão implantados no terreno ou por opção estratégica, o que seria lamentável, e nos faria descrer de certos valores apesar de tudo respeitáveis, ou por conivência com a «bondade» desses interesses, o que seria intolerável, e nos levaria longe na caracterização deste fenómeno. 

À destruição cega e fria do património construído, junta-se a insólita ocupação do miolo dos quarteirões2, como acontece, mais uma vez, com o jardim do Palacete Matos Graça. Um Palacete daquela época é indissociável do seu jardim. Mas aqui ocupa-se e desfigura-se o seu enquadramento, enchendo-o de betão e fixando formigueiros humanos nesse miolo. 

Os bracarenses estão adormecidos ou fingem que dormem? Não dão por estes atropelos? Será necessário que apenas alguns - idealistas de uma cidade habitável e clientes dos deveres que a cidadania lhes impõe - assumam o papel de vigiador na formulação e na proclamação destes protestos veementes e doloridos como requiem pela memória que importa conservar? 

É urgente que algum estudioso se abalance a investigar e a seriar o que resta das casas dos «brasileiros» concelho de Braga. Por toda a parte se faz o mesmo, se reabilita esse tempo da nossa diáspora, documento vivo de uma época do nosso viver colectivo. 

Recordo outro Palacete de «brasileiro», de equilibradas linhas arquitectónicas, que existia no topo Norte da Rua Bernardo Sequeira, que foi insolitamente demolido e no seu lugar erguido um imóvel de gosto duvidoso. É urgente procurar fazer uma paragem nesta alegre e inconsciente destruição do património construído. É urgentíssimo que os bracarenses se interroguem sobre o sentido do seu voto e os resultados patentes das suas opções. Sem sectarismos indesejáveis a toldar o seu juízo. Sem sentimentalismos exaltados a impedirem uma visão clara e idónea das realidades. 

Eu choro pela destruição do Palacete Matos Graça como algo de mim mesmo que feneceu irremediavelmente e não me pode ser jamais devolvido. Alguma coisa que vivia no meu senso da cidade se está a perder - por quê? A memória colectiva e a minha própria memória sentimental estão inconsolavelmente ofendidas - em nome de quê? 

Em Braga continuamos a viver a «sinistra noite» do fachadismo! Permanecem as fachadas - quando permanecem - como concessão piedosa dos autarcas aos que se dizem defensores do património construído e ao próprio património! É obra! 



Associado n.º 173 da ASPA


1 Sobre esta problemática ver os livros «Fafe dos 'brasileiros' (1860-1930) - Perspectiva histórica e patrimonial», 1991, e «Migrantes, Emigrantes e Brasileiros (1834-1926)», 2000, da autoria do Dr. Miguel Monteiro, mestre em História.

2 Ter em atenção o notável artigo do Dr. Miguel Melo Bandeira, mestre em Geografia e doutorando, intitulado: «A expansão urbana no 'miolo' dos quarteirões: reabilitação ou descaracterização do Centro Histórico?!», publicado no ENTRE ASPAS do «Diário do Minho», de 06.05.1996. 


O Palacete de Vellozo ou Matos Graça, no Largo da Senhora-a-Branca, era um marco arquitectónico de uma época. Irremediável e barbaramente sacrificado.