[Publicado do "Diário do Minho" de 2001.06.04]

Sobre as Sete Fontes
Luís Costa

Agora que está a debater-se com acuidade, felizmente para a preservação do património, o problema da classificação do conjunto do Abastecimento de Água das Sete Fontes, não é descabido trazer até aqui algumas notas sobre o cuidado que os nossos antepassados tiveram com o abastecimento da preciosa linfa, que já hoje é considerada como o OURO DO SÉCULO XXI.
Assim sabemos - que devido pelo menos a partir dos princípios do século XVI e no Governo da Arquidiocese bracarense pelo grande Arcebispo Dom Diogo de Sousa (1505-1532), passando por Dom Rodrigo de Moura Teles, Dom José de Bragança e Dom Caspar, para não citar outros mais - o problema do abastecimento de água à sua cidade (sua como Senhores de Braga) esteve sempre na mira destes Antístites. Assim, sabemos que Dom Diogo de Sousa levou, ou deu água à Fonte dos Granginhos, em "1531 mandou e fez vir água por canos de alcatruzes de pedra à estrada da rua da Cónega" - "Fastos", Monsenhor Ferreira - (Fonte de São Tiago), a da Pracinha, aproveitando a água da Fonte de São Geraldo, que nascia e nasce debaixo das escadas da igreja da Misericórdia, mandou reconstruir a da Carcova (hoje Torre da Igreja sob a dos Terceiros), deu água a um fontenário no largo do Paço, substituído mais tarde pelo actual dos Castelos, este mandado fazer por Dom Rodrigo de Moura Telles que, por sua vez, deu água ao Hospital de São Marcos, como o prova a inscrição que se lê nos claustros.
Mas a obra máxima do abastecimento de água ficou a dever-se a Dom José de Bragança, que mandou explorar as Minas a Norte da Cidade, no lugar que ficou conhecido como "As Sete Fontes", exploração que é uma verdadeira obra de engenharia hidráulica do século XVII e que ele, através de condutas de pedra, fez chegar a diversos pontos da sua cidade, obra que, até à primeira dezena do século XX, abasteceu a população bracarense com uma água de grande qualidade, só substituída cerca de 1913, quando a água do Cávado chegou até aos reservatórios de Guadalupe. No entanto, e ainda hoje, há muitas casas onde essa água chega, direito antigo chamado "penas de água" (medida do diâmetro da torneira). Logo, o abastecimento público, pode dizer-se, muito ficou a dever aos Senhores de Braga.
Quando da Lei da Extinção do Senhorio de Braga, em 1970, os Arcebispos deixaram de ter a responsabilidade da conservação dessa rede subterrânea de condução e conservação, encargo que deve ter passado para a Administração Civil. Então a fiscalização das minas, a limpeza das Caixas de Água, a boa conservação das nascentes, que até então era feita pelo encarregado nomeado pelo Arcebispo, com a concordância das respectivas vereações, passou unicamente para as mãos dos serviços da Câmara que, através do vereador das águas, continuou com o mesmo desvelo na acção benéfica de proporcionar água em condições para abastecer a população, que dia-a-dia ia aumentando.
Respeitando, ou por outra, continuando com as mesmas intenções que vinham de séculos atrás, mantiveram as Câmaras que se seguiram sempre dois funcionários que eram os responsáveis pela boa observância do fornecimento. Desses empregados, um passou a ter a categoria profissional de AGOEIRO, o que inúmeras vezes vemos mencionado nas actas, pelo menos a partir de 1970, uma vez reclamando e pedindo providências contra o mau estado de conservação das condutas, dos roubos que os confrontantes faziam desviando parte da água para os seus terrenos, realizando furos ao lado, fiscalizando o seu estado de pureza, assistindo ao estado das nascentes, isto é, tomando sob a sua responsabilidade o bom abastecimento da água necessária à cidade.
Ora, portanto, sempre houve um encarregado que tinha como fim zelar pelo bom estado dos caudais e do seu transporte, desde as nascentes até chegar ao consumo público.
Baseado num registo exarado no Livro de Registos da Câmara de 1834-1875, a fol. 122 e com a data de 24 de Outubro de 1853, apuramos um:
"Auto de exame às Águas Públicas da Cidade nas Sete Fontes.
Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e cinquenta e três, aos vinte e quatro dias do mês de Outubro do dito ano, e no sítio das Sete Fontes, e no Pinhal de Boa-ventura António Maciel, ali se achava reunida a Ilustríssima Câmara Municipal, como se tinha deliberado na Sessão de vinte e um do corrente e presidida pelo Excelentíssimo Barão de São Martinho de Dume, estando presentes os Ilustríssimos Vereadores José Joaquim Soares Russel, Bento Miguel Leite Pereira, Simão Pereira de Sousa Azevedo Barbosa, juntamente com o Ilustríssimo Delegado de Saúde deste Distrito, o Doutor José Maria de Moraes Pacheco, e os Facultativos da Câmara Municipal os Ilustríssimos Doutor Manuel Vieira de Araújo, João José Comes da Costa, Francisco Joaquim Marques, o Farmacêutico o Ilustríssimo João Luís Pipa, e principiando a examinar as águas de todas as Caixas colocadas nas Sete Fontes decidiram unanimemente que a água da Mina do Conselheiro e Excelentíssimo Joaquim da Costa Rebelo e do Ilustríssimo António Brandão Pereira de Araújo Pimentel não era potável em consequência de actualmente se achar impregnada de partículas térreas e isto devido a se achar a dita Mina aluída na sua origem e estarem as águas estagnadas e estas comunicar com as da Mina. Em vista da comunicação dos Facultativos da Câmara deliberou que a água da referida Mina fosse retirada imediatamente do Aqueduto das Águas da Cidade não podendo ali tornar a ser introduzidas sem que novamente sejam examinadas por esta Câmara e Facultativos. Em seguida ordenou ao AGOEIRO, Bento José Ferreira e Guarda das Águas Arcelino José Ferreira que imediatamente procedessem a uma limpeza rigorosa em todos os Aquedutos e Depósitos de Águas Públicas e por não haver mais que deliberar se fechou este Auto que todos aqui vão assinar depois de lido por mim, de que dou fé. E eu Manuel Joaquim Manso, Escrivão da Câmara, o escrevi.
Seguem-se as assinaturas dos intervenientes do Auto."
Para não se perder o nome profissional de Agoeiro, a Câmara atribuiu, perto do local das Sete Fontes, este nome a um arruamento. Para terminar devo dizer que também havia umas minas em Montariol, que foram mandadas explorar por Dom José e que pelo Areal de Cima e de Baixo traziam a água à cidade, até, pelo menos, à Arcada, passando pelo sítio da actual Quinta do Pachancho, que ali se repartiam para um fontenário à entrada da Cangosta do Areal (hoje mais ou menos a rua de Infantaria 8), e cujas vertentes seguiam para a Casa de Vale Flores, e para uma caixa de água no adro de São Vicente, que a fornecia ao Fontenário de Dom José e ao lago, no Campo Novo, e ainda também para o fontanário dos Penedos, e, em cerca de 1858, para o depósito do Largo de São Francisco.
Eis, portanto, umas pequenas achegas para a história do abastecimento de água que, no século XVIII, temos a sorte de afirmar que já era em Braga, para alguns, distribuída ao domicílio.

Associado n.º 14 da ASPA