[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.03.11]

 

Os segredos de Braga
Eduardo Pires de Oliveira
Henrique Barreto Nunes

Percorremos diariamente os caminhos desta cidade construída e habitada há mais de 20 séculos.

Percorremos diariamente, quantas vezes indiferentes, 20 séculos de histórias e de memórias, de vestígios, presenças e representações marcantes.
Deparamos (ou não) com pormenores silenciosos e ignorados de vivências, de esplendores de antiga glória ou de quotidianos cinzentos.
Percorremos diariamente a cidade e não vemos, não reparamos por onde os nossos olhos se perdem.
A cidade, para além da rudeza do granito, tantas vezes sensualmente modelado, para além da exuberância cenográfica da talha dourada, para além da mediocridade alarmante das recentes intervenções arquitectónicas ou urbanísticas, encerra ainda muitos mistérios e interrogações, muitos segredos e omissões.

A situação que hoje revelamos e para a qual alertamos é um desses casos de um segredo que num dia próximo poderia ser irremediavelmente perdido.
E, afinal de contas, trata-se da nossa memória, de um fragmento de vida e de sonhos de gente que habitou esta cidade.
Estou convencido que cada casa, cada pequena obra de arte ou elemento decorativo, que cada quadro, cada livro antigo que se destrói ou se perde, nos torna um pouco mais órfãos, empobrece-nos, corta as raízes, a nossa identidade.

Já lá vão mais de 20 anos sobre uma estupenda e inédita exposição que a ASPA fez sobre algumas casas de Braga que tinham tectos e paredes pintadas. O sucesso e o interesse foram tão grandes que a vizinha cidade de Guimarães avançou, quase de imediato, com uma exposição semelhante.
Naquela exposição foram apresentadas muitas imagens belíssimas, de um património inteiramente desconhecido. Infelizmente, passadas que foram duas décadas, não podemos deixar de lamentar que uma parte importante daquele património tenha sido destruída. Referimo-nos concretamente ao crime de lesa-arte que aconteceu com o palacete brasileiro da Senhora-a-Branca, à perda das pinturas do antigo café Cinelândia e à grande degradação que têm sofrido todas as restantes pinturas, sobretudo as existentes na Casa Rolão e no palacete dos Condes de Carcavelos, ocupado pelo Centro de Saúde, onde estão os mais interessantes estuques de Braga, infelizmente tapados com placas de madeira para não caírem de vez!
Claro está que apesar do apoio caloroso que recebemos de vários cidadãos bracarenses que nos indicaram uma boa parte destas casas, não foi possível inventariá-las todas.

Recentemente fomos contactados por uma senhora que nos veio informar que na sua casa havia umas pinturas que reproduziam "Braga Antiga".
E, na verdade, para grande admiração nossa, encontramos o conjunto de pinturas que do ponto de vista da iconografia bracarense podemos considerar como as mais interessantes que conhecemos.
Exteriormente nada havia na fachada do edifício, situado na Rua D. Frei Caetano Brandão, que chamasse a atenção, excepto o revestimento ainda impecável de azulejo oitocentista.
No interior há uma bela porta do mesmo período com um monograma que ainda não conseguimos identificar. As salas dos três primeiros andares encontravam-se fechadas.

Mas a surpresa ficara guardada para o fim: a clarabóia estava inteiramente revestida por pinturas: motivos florais, vultos das artes e letras e, ainda, um conjunto extraordinário de quatro pinturas que reproduziam três espaços públicos bracarenses e a Ponte de D. Maria, no Porto.
Ou seja: à nossa frente tínhamos o Campo Novo, o Campo das Hortas e a Praça da República!
As questões que imediatamente se nos levantaram foram as de saber a data e, também, a fidelidade do pintor. 
Felizmente que a data não foi difícil de encontrar pois há uma fotografia da Arcada que foi publicada num dos vários números únicos saídos em Junho de 1884, por ocasião das Festas do I Centenário do Lançamento da Primeira Pedra do Templo do Bom Jesus do Monte, que nos mostrava este edifício ainda em obras, com a varanda da parte Sul ainda só parcialmente colocada e uma boa parte da fachada por rebocar, quer da parte Norte da igreja da Lapa, quer da parte Sul. Se olharmos melhor para a fotografia veremos que o reboco apenas cobre duas das janelas da parte Sul e quatro do lado Norte; ora a pintura mostra a Arcada exactamente no mesmo estado!
Quanto à fidelidade do pintor nada há a dizer em seu desfavor. Quando muito apenas poderemos ter algumas dúvidas sobre o grande muro que ocupa a parte Sul da pintura que retrata o Campo das Hortas. Mas é bem possível que esteja correcta como todo o restante.
Ou seja: estamos perante algumas das mais antigas imagens que conhecemos da cidade de Braga, cidade que é muitíssimo parca de iconografia antiga.

A questão que de imediato se nos coloca é a de saber o que poderá acontecer a estas pinturas. A casa precisa de obras urgentes e de vulto; e as pinturas já apresentam algumas fissuras e deslocamentos. A parte que está em pior estado é a que tem motivos apenas decorativos, pois já caiu uma parte significativa.
Em contrapartida, os quatro rostos e, sobretudo, as três vistas de Braga e a do Porto, estão praticamente completas, apesar das fissuras e deslocamentos.

Mas até quando é se aguentarão? Até quando poderemos continuar a ter o prazer de as poder ver? É absolutamente urgente e necessário que seja feita uma intervenção imediata. Senão arriscar-nos-emos a ficar apenas com a memória das fotografias.
Será isso o que vai acontecer? Repetir-se-á aqui o triste fado do palacete brasileiro da Senhora a Branca?
Que posição vai a câmara tomar? A de dizer que nada pode fazer porque o edifício pertence a particulares? Mas há uma lei que permite que as câmaras obriguem os proprietários a fazer obras sempre que os edifícios ameaçam ruína! A não ser que se vá repetir aqui a triste sina da Sala Egípcia do Sindicato dos Empregados do Comércio que cada dia que passa fica mais e mais degradada; até custa a perceber como é que tem aguentado tanto!

Se o leitor conhecer outras casas que tenham pinturas nas salas, caixas de escada ou outros compartimentos, agradecemos que nos comunique (ASPA - Apartado 78, 4711-909 BRAGA Codex, info@aspa.pt).





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