[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.03.25]

Uma visita a Guimarães - Património da Humanidade
José Moreira

A ASPA desde sempre alargou as fronteiras da sua acção, procurando que se não confinassem à redutora pequenez de um burgo apenas e das suas idiossincrasias específicas. E agora, quando comemora 25 anos de Utilidade Pública continuada, refunda aquele propósito e sai do termo da sua sede social e parte em direcção a outras problemáticas e a outras realidades monumentais. Ontem, foi Vila do Conde que se facultou aos participantes e, agora, foi a vez de Guimarães, recentemente galardoada com o mérito e o responsabilizante título de património mundial da humanidade atribuído pela UNESCO.

Em cada comunidade há um sentido de salvaguarda do seu património específico, que as palavras por vezes não exprimem com rigor, mas os factos confirmam. A prevalência da riqueza patrimonial disponível em cada espaço geográfico afirma a clarividência e o carinho com que aquele é olhado, estudado e defendido. Guimarães é, nesse aspecto, uma urbe exemplar, porque soube manter o carácter urbano em que vários ciclos dominantes têm representação viva e farta não embarcando na acanhante e achicalhante ideia de que o património é pura matéria de museu! - na sua realidade estruturante e prometem resistir vitoriosamente à Babel dos vários "modernismos" que o pretendem subverter - e em outras urbes têm subvertido ingloriamente! Em Guimarães, as linhas dominantes da sua estrutura como cidade que nasceu na idade média, podem ler-se no dédalo das suas ruas estreitas que vão desembocar em pracinhas e praças desafogantes, o casco urbano mantém ainda assinaladas - procurando fazer uma ligação com a história - as suas portas de acesso e vence a batalha de assegurar o respeito pelas cérceas e os volumes que vêm detrás, além de patentear um desenho emblemático de harmonia e equilíbrio. As excepções a estas regras são poucas e não chegam a macular a linha geral desta nobre e culta população. Mas toda a vigilância nunca será demasiada para que esta ajustada realidade se não perca. A regra é manter, recuperar e reabilitar sem destruir ou ignorar elementos decorativos assinalavas, sem fracturar e sem deslocar pessoas e tradições, sem apagar as marcas que a história fixou nos seus vários ciclos,

sem eliminar, mas antes avivar, hábitos e costumes, radicando e aprofundando atavismos culturais e sociais.

Este núcleo urbano tão bem conservado enquanto realidade patrimonial, está também já cercado por habitações "acaixotadas" que a ofendem e agridem a sensibilidade estética de todos nós. Este não é o preço do progresso, como se pretende afirmar fatalisticamente, porque o chamado progresso também se pode compatibilizar, harmonizar e disciplinar. O mau gosto e a má solução à solta não devem prevalecer, como verificamos, por exemplo, em dois mastodônticos imóveis que estão a crescer - excessivamente, diga-se em abono da verdade! - e a macular o recorte esbelto das torres do templo dos Santos Passos e criam na paisagem envolvente um corte abrupto, dramaticamente feio e desajustado.

No dia 16, logo de manhãzinha, perto de 40 bracarenses acorreram ao apelo da ASPA para que visitassem ordenadamente aquele património mundial, paredes meias com a sua terra. Não para esgotar numa só visita o imenso mostruário disponível, mas para seguir um determinado itinerário, no qual o centro histórico tivesse o relevo merecido, porque esforço conseguido de reabilitação e seu pleno desenvolvimento: seus critérios profundos, seus objectivos reais e seus resultados concretos.

Esta visita foi programada em colaboração com a "Muralha - Associação de Guimarães para a Defesa do Património" e começou pela igreja do Carmo, onde a Dr.ª Maria José de Queirós Marinho Meireles e o investigador Eduardo Pires de Oliveira foram os cicerones seguros que revelaram aspectos históricos ligados ao templo e à comunidade religiosa que o edificou, pormenores artísticos mais a ter em conta e os artistas envolvidos na sua concepção e execução.

Seguiu-se como estava previsto, um passeio a pé até ao largo da Oliveira, visitando monumentos e tipismos, para se admirar o Museu Regional de Alberto Sampaio, sob a orientação da Dr.ª Isabel Fernandes. Visitação importante, tanto pelo cuidado e escrúpulo postos na intervenção oral e sua oportunidade, como pelo rico acervo do museu, o pormenor da descrição das peças expostas e dos espaços - sua função histórica e seu actual desígnio -, a pedagogia da "verdade" das peças já recuperadas através de um conseguido processo de mecenato. Não me é possível, por imposição do espaço disponível, desenvolver com mais pormenor o que foi esta visita memorável, que também marcou o início dos atrasos sempre inevitáveis nestas iniciativas, razão por que teve de ser cancelada a que estava prevista ao templo dos Santos Passos.

Após o almoço, realizou-se um passeio pelo centro hist6rico e zona dos Couros, dirigido pela arquitecta Alexandra Gesta, directora do GTL (Gabinete Técnico Local) que começou por desenvolver uma sucinta intervenção sobre a filosofia da reabilitação daqueles espaços, consubstanciada na permanência nas suas habitações das pessoas nelas alojadas, mantendo o vínculo da troca de serviços e de favores entre elas, as tradições de vizinhança e o enraizamento dos seus costumes e hábitos, o usufruto dos seus quintais (os miolos tão ferozmente disputados em Braga e já em vias de extinção) e o enquadramento histórico do próprio bairro ou aglomerado. Esta fase da visita começou no Toural, cuja ala nascente apresenta um harmonioso conjunto de edifícios construídos no século XVIII em plena época pombalina e exprime uma versão minhota do estilo daquele tempo, adaptado naturalmente às características e aos materiais da região, que têm sido reabilitados em ordem à sua total preservação estética. Seguimos, feito isto, pelo largo de João Franco, rua Gravador Molarinho, praça de Santiago, largo da Oliveira, rua de Santa Maria, rua Egas Moniz, largo Condessa de Juncal, com tempo ainda para ver um aproveitamento sui generis conseguido por acordo com o proprietário dos edifícios anteriores e que possibilitou que ficasse desfrutável um pano da muralha.

A zona dos Couros, complexo urbano de intensa fisionomia industrial por onde corre o ribeiro do mesmo nome (que me lembrou a nossa zona dos Galos, já quase definitivamente perdida como expressão rural-ribeirinha, já sitiada por enormes blocos de habitações, populações autóctones expulsas inexoravelmente do seu habitat natural!). Ali, ao contrário - e estou a imaginar o capital de resistência que foi necessário despender para conseguir que este projecto prevalecesse contra interesses ilegítimos dos especuladores e outros - fomos informados dos projectos em curso e da preocupação de manter a estrutura urbana existente, a reabilitação e a nova utilização dos imóveis, destinando-se alguns a uma pousada de juventude, infantário e lar, e outro a museu da indústria de curtumes - tudo realizado sem acrescentar mansardas aos prédios, desfigurando-os.

Tudo ainda conhecido com antecedência e amplamente pela opinião pública que, com este critério, pode participar na sua discussão desejável acentuando o seu crescimento cívico, promovendo a fixação das populações originárias do sítio, mantendo a tipologia e a idiossincrasia do lugar. O que já foi uma zona de maus cheiros vai tornar-se mercê das virtudes intrínsecas deste método edificado a pensar na pessoa e na sua dignificação integral, zona habitável.

Mais tarde, Eduardo Pires de Oliveira orientou ainda as visitas feitas com pormenor às igrejas de S. Domingos e de S. Francisco, esta em fase portentosa de recuperação. Nesta foi excelente a colaboração do Sr. Belmiro Jordão, mesário da Confraria, que facultou a abertura de todas as dependências do amplo e belo templo e do vasto edifício envolvente, valorizando a informação recolhida. .

A ASPA teve sempre neste peregrinar por um itinerário inabitual da cidade de Guimarães, a companhia devotada do presidente e outros membros da direcção da "Muralha" com quem está disposta a aprofundar laços, intercâmbios e colaborações, vencendo resistências e incompreensões do pior bairrismo, como sejam celebrar as belezas e as conquistas alheias, como algo que tem que ver com o património e a história comuns.

É este, singela e sumariamente, o balanço que faço desta romagem que a todos agradou.

No mês de Abril, visitaremos a igreja de Santa Cruz, em Braga, orientados pelo investigador Eduardo Pires de Oliveira; no dia 18 de Maio, iremos à Sé Primaz de Bragal dirigidos pelo cónego Prof. Doutor José Marques; no dia 15 de Junho, será a vez de Valença e o seu património histórico-monumental, ciceronados pelo Major Alberto Pereira de Castro, seguindo-se uma visita a Tuy e seus bens patrimoniais.




Associado n.º 173 da ASPA