[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.06.17]

A pastelaria e confeitaria "Suissa e Portugueza"
José Moreira

Ando a cismar e a acalentar na alma, desde tempos longínquos, a ideia de vir a fixar numa crónica o que foi, em tempos idos e nesta minha cidade de Braga, um estabelecimento exemplar de que guardo na memória alguns traços, mas que não sei se serão suficientes para a sustentar. Lembro-me que se situava na rua de São Marcos, n.os 47 a 53, lado nascente, em dois edifícios, entretanto demolidos, para darem lugar aos "Transportes Mecânicos" - onde actualmente está uma loja de calçado - parece-me que desintegrado da fisionomia do lugar, quero dizer a ofender gratuitamente as cérceas, os volumes, a harmonia e o gosto corrente na via.
Aquele estabelecimento exerceu sobre o meu imaginário infantil fascínios tão sedutores que, ainda hoje, passadas já tantas décadas, me impelem a procurar montar o seu difuso enigma.

O que me chama e atrai talvez tenha a ver com o mundo poético inefável da minha infância, com a doçura e a gentileza bucólica daquele tempo na minha urbe natal, com uma chamada de natureza artística sem lógica decifrável, mas consumada pelos meios mecânicos então disponíveis. Só sei de ciência certa que transporto comigo esta carga afectiva ao longo do tempo e me sinto citado em instantes mais poéticos a considerar como realidade que desejo seja fidelidade a um dado tempo, a uma imagem que figura um marco imperecível e uma realidade sentimental, muito para além do mero exercício literário.

Naquele tempo, a rua de São Marcos era seguramente a artéria mais típica da urbe bracarense - pelo menos, recordo-o com comovida saudade e gratidão! - foi assim que a considerou o notável escritor Plínio Salgado numa das visitas que fez à minha terra, na década de 40 do século findo, sendo ciceronado pelo Amândio César e por mim próprio em desataviados percursos locais, onde veio proferir uma conferência sobre a história da formação das cidades brasileiras, tendo Ouro Preto como referência vital. Os mesteres ainda então bem presentes naquela via urbana, na sua diversidade e tipicidade, tinham a sua sede ali. Entre aquelas, também a oficina de escultura religiosa de mestre João Evangelista de Araújo Vieira, instalada no rés-do-chão do edifício da residencial de São Marcos, local onde o escritor Antero de Figueiredo assistia ao nascimento das belas imagens que o artista arrancava à madeira bruta e tosca e generosamente espalhou no mundo luso-brasileiro do seu tempo. O escritor captou esses instantes criadores que romanceou em "O último olhar de Jesus" e concorreu assim, involuntariamente, para que me seja permitido intentar recriar esse habitat bem bracarense.

Busco na memória, com a persistência e o delicado cuidado que as décadas já vencidas justificam, o que havia de emblemático naquele fascínio que resistiu à erosão do tempo e ao próprio envelhecimento das faculdades humanas, a chave que me permita enfrentar o desenho ideal do fresco que tenho como objectivo apresentar. O objecto dessa saudável inquietação é a "Pastelaria e Confeitaria Suissa e Portugueza". Muito para lá das especialidades que ali se fabricavam e se ofereciam ao público, procuro o seu cliché tão fiel quanto possível, o segredo envolvente da sua acolhedora solicitação irresistível, a harmonia e o bom gosto do seu enquadramento decorativo, as propostas de lazer e de pura diversão num tempo tão ingenuamente desprovido delas, sobretudo as destinadas aos mais pequenos. Aquele simbólico estabelecimento, era também o café de então (porque naquela época os cafés chamavam-se botequins e eram mais leitarias do que cafés, como hoje os concebemos, formas de proporcionar simultaneamente o intercâmbio de ideias e o convívio).
Nunca fui homem de apurados prazeres e sabores gastronómicos e, muito menos, de doçuras a roçar os limites do aceitável. Não me posso, por essa razão lapidar, soberana e imperativa, debruçar com competência sublimada pela praxe sobre os reais atributos da fábrica e da casa. Serei talvez o oposto do consagrado "bom garfo e bom copo". Recuso-me, portanto, a esboçar sequer um juízo de valor sobre as especialidades que ali se criavam e vendiam. Mas sempre lhes ouvi boas e creio que justas referências!

A "Pastelaria e Confeitaria Suissa e Portugueza" tinha uma designação com inteira correspondência na realidade. "Suissa" não era um anacronismo linguistico a puxar ilusoriamente à internacionalização imerecida - agora tão em voga - no mundo do comércio e das marcas. O seu fundador era um cidadão suíço, de seu nome Johan Oehen, que nasceu no ano de 1866, em Lieli, cantão de Lucerna e, aos 20 anos, foi para Paris frequentar uma escola de pastelaria e confeitaria. A seguir esteve empregado nas casas francesas "Patisserie R. Lejouaille", sita na rue Rochechouart, 78, em Paris, e na "Patisserie Confiserie Girondeau-Colas" em Feren-Tardenois, no departamento de L'Aisne, a 100 quilómetros de Paris.
Johan Oehen imigrou, mais tarde, para Portugal a convite de uma pastelaria de Lisboa, que fornecia a Casa Real, e visitou em data indeterminada a cidade de Braga, onde talvez lhe nascesse o desejo de se fixar numa urbe provinciana e ali instalar e impor uma arte requintada e um hábito alimentar nascente, agora que estava exangue a vida conventual e com ela comprometido o fornecimento de guloseimas, que ajudavam a manter as exigências financeiras das freiras. Impiedosa esta ideia de "liberdade" dos novos senhores que suprimem a liberdade de cada um escolher o género de vida por que quer optar!
Por esse tempo, Oehen deslocou-se a Genebra à procura de uma conterrânea com quem pudesse casar-se e que o ajudasse na ciclópica tarefa de concretizar o sonho que o devorava. Casou-se em Dezembro de 1899, com Mathilde Sophie Fritschi, nascida em Zwingen, cantão de Berna.

Em Braga só há notícia da existência nessa época de duas confeitarias: as ainda hoje conhecidas por "Luxa" e "São Vicente". O mercado exigia naturalmente uma pastelaria. Ele intuiu-o lúcida e claramente. Funda, talvez no ano de 1900, a já referida "Suissa". Que desde logo enveredou por outras modalidades, tais como a restauração com serviço à lista, distribuída por gabinetes para facilitar a intimidade e a privacidade de pequenos grupos. Tenho notícia de estudantes coevos, bem conhecidos na vida local,, que frequentavam a casa: Francisco Sá Tinoco, António da Gama Lobo Xavier, António Abranches, Augusto Cerqueira Gomes, Alberto Cruz, Teotónio dos Santos, e muitos e muitos outros, cujo registo se tomaria fastidioso.

A memória fornece-me a imagem cromática de um mobiliário de nobre concepção, de tons escuros, de excelente harmonia, que me sugere outros ambientes do género ainda conservados no património europeu ou reconstituídos pelo cinema. Mas o que importa à minha saudosa e afectiva sugestão amabilíssima, como meta apetecida, é o Miraphone Automático, de fabrico suíço, misto de realejo e de movimento de figuras de fino recorte, inefáveis bailarinas que voavam e riscavam desenhos miniaturais num palco-ecrã de sonho, entre a gravidade e a fantasia mais esfuziante, coreografias que ainda guardo na alma e encantavam e encantam a minha sensibilidade infantil e alimentaram - quem sabe ?! - a minha tendência lírica para a memória de coisas como esta de que estou a falar. A Senhora Dona Ermelinda foi como que a fada madrinha da minha meninice e da do meu primo Américo Cabanelas Rodrigues, e quem conduziu a nossa curiosidade expectante para aquela "disneylândia" antecipada de quase um século, como que a afirmar-nos que o sonho não é utopia alienante, mas realidade que em certos momentos solenes de encontro com nós mesmos nos empolga e catapulta até à beleza. Mostrar essa beleza aos distraídos destes tempos novos do vazio e da morte de Deus é um dos meus deveres.
Há bem pouco tempo ainda, na residência da Senhora D. Margarida Oehen1, tive a feliz oportunidade de me reencontrar e de reapreciar aquele desejado Miraphone Automático e com lágrimas furtivas nos olhos senti na alma o impulso imperativo de escrever esta evocação do tempo já perdido. Ao revisitar aquelas bailarinas, ingénuas, graciosas e sorridentes, estáticas na sua pose de quem espera uma ordem ou sinal, fui projectado para o tempo já passado, quando, extasiado, as via desenhar piruetas harmónicas ao som dos acordes de partituras clássicas, cumprindo inenarráveis e inimagináveis efeitos coreográficos. A saudade é um bicho que torna a memória o verdadeiro tempo presente de agora!

Como lamento não saber escrever melhor, com mais rigor e fantasia, o universo das emoções recebidas na alma, que figurem como imagens vivas na nossa saudade, no nosso coração afectivo, meninas de Velasquez num quadro de luzes e de sons que se destacam da essência do sonho e vivem no melhor de nós mesmos.
Deixarei, misturada com esta evocação desajeitada, uma figura real daquele pequeno, disciplinado, harmonioso e esbelto corpo de bailado em fotografia recentemente recolhida. Ficará como documento de um tempo que já foi.
Em Braga ainda há - milagre assinalável! - quem não deite fora as coisas, como quem exorciza o passado, os seus valores, símbolos e mitos, e nos preste este inestimável e nunca por demais aplaudido serviço de podermos reconstituir uma nesga do tempo perdido, um avivar gozoso e pleno da memória que existe no homem e só se esfuma quando a alma sente o apelo irresistível do além e o corpo corruptível é dado à terra de onde emanou. Tudo tem de estar ao serviço das grandes causas colectivas. Os que assumiram responsabilidades perante o povo, que não cumprem por omissão deliberada, serão julgados em nome do bem comum.

A "Pastelaria e Confeitaria Suissa e Portugueza", por falecimento do seu fundador, o prestante cidadão Johan Oehen, no ano de 1933, por pouco mais tempo lhe resistiu e cesso a sua actividade no ano de 1934/35.
Se a minha voz fosse ouvida ao clamar neste deserto de ideias e de linhas de rumo que caracteriza o governo de Braga hoje, sugeriria que aquela peça fosse adquirida para poder enquadrar o futuro Museu do Povo Bracarense, que me parece imperioso vir a criar-se no futuro desta terra bi-milenar à procura dos sulcos profundos da sua identidade.
Ao homenagear um imigrante que, nos alvores do século XX, procurou a minha terra para nela exercer uma actividade profissional determinada e servir as exigências do progresso da comunidade de então, homenageio do mesmo passo a numerosa família que aqui constituiu, particularmente a minha querida amiga Margarida Oehen, a quem agradeço o esforço de me tomar possível os dados objectivos referidos nesta croniqueta.



Associado n.º 173 da ASPA


1 Recentemente falecida. Nota do Autor em Abril de 2003.

Pastelaria Suissa e Portugueza
A Pastelaria como era em 1922, na rua de S. Marcos, n.os 47 a 53, decorada em homenagem a Gago Coutinho e Sacadura Cabral de visita a Braga

 

Miraphone Automático
O Miraphone Automático, delicadamente conservado até aos nossos dias