[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.08.26]

Um passeio no parque do Bom Jesus
António Macedo*

Colocado imponente, sobranceiro a Braga, encontra-se um local que é um dos seus expoentes máximos no que concerne a beleza e envolvência espiritual. Este local é o Bom Jesus.

Quem vem da urbe bimilenar pela rodovia, o pórtico do Bom Jesus marca o limiar do seu domínio territorial. Atravessando-o, entra-se num espaço místico. As escadarias, envolvidas por árvores centenárias, conduzem, na ascensão do caminhante, a capelas que exprimem a paixão de Cristo. São paragens obrigat6rias quer para o devoto quer para o turista. Contíguo a cada capela, está uma fonte que jorra água límpida e fresca onde se pode saciar a sede.

Num patamar médio, encontra-se o primeiro miradouro, do qual se avista a cidade de Braga e paisagem envolvente. A partir daí, as escadarias já não ziguezagueiam por entre o bosque frondoso. O espaço torna-se aberto. Ao cimo está a igreja do Bom Jesus, imponente, convidando o caminhante a alcançá-la.

Como alternativa, pode-se chegar à igreja utilizando o elevador no pórtico, movido pelo peso da água e construído em finais do século XIX.

Chegando à igreja de estilo eminentemente barroco, deparas-se com um espaço amplo onde sobressai a geometria dos seus jardins; pode-se imaginar Camilo Castelo Branco a escrever as suas "Novelas Minhotas".

Este é o ponto mais mediático do Bom Jesus. Vários hotéis aqui se situam. Existe também, um bar com esplanada, que já foi um quiosque, onde pessoas e gatos se deliciam com o sol. Daí avistam-se, em dias límpidos, cenários deslumbrantes: em baixo, está a cidade que se expande, mais ao longe, a Oeste, vislumbra-se o mar; para o interior, as serras do Soajo, Amarela e Gerês, cobertas de neve nos dias frios de Inverno, marcam o seu rendilhado no horizonte.

Antes de prosseguir a ascensão, depois de ter visitado a igreja magnificamente ornamentada e onde se encontra exposto um santo mumificado - de nome, S. Clemente - o visitante pode ir pesar-se, por uma quantia acessível, numa balança de ferro antigo dos princípios do século. Um pouco acima, ao lado do posto da GNR, situa-se o lago dos desejos, lançando-lhe uma moeda, pode-se formular um pedido.

Mais acima, em pleno bosque, encontra-se o lago dos barcos, ladeado por um bar de madeira, um campo de ténis e um jardim infantil. Os caminhos por entre o bosque são relaxantes. Em dias quentes, pode-se merendar ou estudar no remanso de mesas e bancos graníticos colocados nos meandros deste bosque.

Nas saídas topo do parque do Bom Jesus, tem-se a possibilidade de andar a cavalo. É um passeio que nos leva a outros paragens, como ao Sameiro.

No dealbar de um novo milénio, o Bom Jesus, prepara-se para ter obras de reestruturação profundas.

Fundado em 1629 pela irmandade do Bom Jesus do Monte, outrora apelidado de "Monte Espinho", esta elevação, inicialmente deserta de árvores, já teve, ao longo dos séculos, mudanças profundas, quer por D. Rodrigo de Moura Teles, António Augusto Pereira, bem como, Carlos Amarante, André Soares, passando por Manuel Joaquim Gomes que, em finais do século passado, transformou o Bom Jesus num local turístico.

Porém, nem tudo é paradisíaco no Bom Jesus. Esta estância apresenta alguns sinais de degradação e desleixo, que poderiam ser resolvidos sem estar à espera dos milhões comunitários: a estrada que dá acesso ao Bom Jesus devia ser interditada a veículos pesados, excepção feita a autocarros, a partir do pórtico. As casas de banho evidenciam falta de higiene e degradação urbanística. A zona da esplanada, no Verão, devido a problemas de esgoto, emana cheiros nauseabundos nada condignos com as fragrâncias florais. Junto ao lago, o bar precisa de restauro. O campo de ténis encontra-se igualmente degradado. Mais grave, é o parque infantil, que não respeita as elementares regras de segurança; é um perigo pôr as crianças a brincar em ferros enferrujados e em tábuas cheias de farpas.

Avizinham-se obras de vulto. Por isso, aconselha-se circunspecção aos seus executantes para prevenir experimentações infelizes que possam ferir a alma deste lugar. Por exemplo, em restaurar o bar da esplanada, transformando-o num restaurante panorâmico, só que já existe um ao lado, é necessária uma esplanada no Bom Jesus mais bonita e envolvente. Fala-se em proibir o trânsito automóvel em todo o parque, o que não é negativo, só que também se fala em pagar bilhete individual para visitar o parque. Não é pela elitização que se evita a autêntica feira em que este parque se transforma nos dias quentes de Verão.

O Bom Jesus é um de todos - religiosos, poetas, devotos, simples visitantes, enfim de pessoas - atraente no Verão pela sua frescura, no Outono pelas folhas multicolores, no Inverno pelo seu sossego e por suas neblinas envolventes, na Primavera pelas suas flores. É um espaço que faz parte do sentir dos bracarenses e de todos os seus visitantes.

Sendo o Bom Jesus um local de interesse nacional e internacional, um emblema de Braga, o diálogo entre a confraria, os diversos grupos preservadores como ambientalistas, historiadores, arquitectos e população em geral, passando pelos média, será imperioso para que este projecto se revele ser, pelo menos, tão positivo como o de Manuel Joaquim Gomes - por exemplo.

Embora a economia seja um pólo dinamizador, a sobreposição dos interesses económicos e especulativos de alguns em detrimento da estética e misticismo deste lugar é de evitar; a bem do Bom Jesus, com toda a sua aura religiosa, estética e lúdica, e, de todos nós.




Estudante