[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.09.23]

 

O Arcebispo Dom José de Bragança e as Sete Fontes
Luís Costa

Depois da morte do Arcebispo Dom Rodrigo de Moura Telles, entrou a Igreja bracarense em período de Sé Vaga ou Vacante, não só pela morte do prelado da Arquidiocese, mas principalmente motivada nas desavenças havidas entre a côrte portuguesa e a côrte da Sede Romana; isto é, entre o Papado e o Rei de Portugal, Dom João V, desavenças que já vinham de trás.
Normalmente, a cátedra bracarense era ocupada por um Arcebispo indicado pelo Rei e confirmado pelo Papa. Por vezes as opiniões não se conciliavam e o corte de relações era inevitável. Raras vezes isso acontecia, mas na primeira metade do século XVIII, acentuando mais a desavença, sucedeu que a individualidade indicada pelo Rei não mereceu o consenso do Papa, e então o corte de relações entre a Santa Sé e Portugal continuou. Vários anos se manteve esta situação sendo então a Arquidiocese governada durante esse espaço de anos pelo Cabido.
Em 11 de Fevereiro de 1739, Dom João V, sem a aquiescência da Santa Sé, apresentou seu irmão legitimado, Dom José de Bragança, como Arcebispo de Braga. A notícia só chegou à Capital do Minho no 25 do mesmo mês. Os bracarenses rejubilaram, não só porque há mais de dez anos a Igreja de Braga vivia órfã de pai espiritual, como também por ser nomeada uma personalidade de tão alta jerarquia - diz Senna Freitas.
Compostas as diferenças entre o Reino de Portugal e a Santa Sé, graças @a acção do Papa Bento XIV, um dos Papas mais amigos dos portugueses - como diz Monsenhor Ferreira nos "Fastos Episcopais" -, em 19 de Dezembro de 1740, no primeiro ano do pontificado, confirmou a eleição que Dom João fizera de seu irmão para Arcebispo de Braga, como se prova pela Bula Divina disponente clementia. Como acima se disse, os bracarenses rejubilaram de alegria logo que tiveram conhecimento da nomeação em 1739. Houve um solene Te Deum na Sé, e por toda a cidade se consumaram festivas comemorações.
Para tomar posse do lugar mandou Dom José, como seu representante, o bispo eleito coadjutor da Arquidiocese, Dom Eugênio Botto da Silva, que "neste dia saiu do Colégio onde estava hospedado, e foi direito à Sé, e depois de fazer orações na Capela do Sacramento, o conduziram à Casa do Cabido, de onde saiu acompanhado de todos os Cónegos; e veio à Capela Mor, se instalou na Cadeira Arcebispal de baixo do docel, que nesta manhã se havia posto, e lhe puseram a Mitra no peito, e assim tomou posse de Braga, e seu Arcebispado a som de repiques e toque de tambores" (Silva Thadim). Depois partiu para a Casa da Câmara Secular do Paço do Concelho, onde estava o Senado reunido com Alcaide Mor com a bandeira da cidade aos ombros que lhe confirmaram a posse como Primaz das Espanhas e Senhor de Braga, tanto no Espiritual como no Temporal, em nome de Dom José, por nele estar provido por bula apostólica que o dito Procurador apresentou aos membros da Câmara e restantes autoridades.
Os senadores, com as suas varas douradas nas mãos, e o restante das autoridades, como o Juiz de Fora, os regedores e o Procurador do Senado, deram, como procurador de Dom José, a Dom Eugênio, a posse "deste dito Arcebispado em nome de Dom José de Bragança", no dia 7 de Março de 1741, tendo então, conforme reza a acta do Livro de Vereações da Câmara dos anos de 1737/1748 a folhas 116v e seguintes: "Logo levaram ao Tribunal o Excelentíssimo Procurador, onde ocupou o lugar da Presidência onde a Câmara lhe deu posse da cidade e jurisdição secular e pegando o Senhor Arcebispo Procurador nas chaves douradas, jurando em nome do Arcebispo Eleito, sobre o livro dos Santos Evangelhos em que pôs a sua mão direita de guardar os privilégios da Santa Sé e Igreja e dos cidadãos e as mais condições na forma das isenções e concordatas feitas entre os Senhores Reis deste Reino, confirmadas pela Santa Sé Apostólica, sob o cargo do qual juramento prometeu guardar em nome do seu constituinte..." (Livro de Vereações acima referido).
Acabou assim o longo período de Sé Vacante, que durou 13 anos (1728/1741) e foi um jubileu para os amigos e apaniguados dos Cónegos - diz Monsenhor Ferreira, na obra já citada.
Finalmente, em 23 de Julho, pelo meio-dia, chegou Sua Excelência Reverendíssima e Alteza Real o Arcebispo Dom José de Bragança à capela de Nossa Senhora da Misericórdia, de Ferreiros, e ali tomou a capa magna e o chapéu episcopal e, em luzidio cortejo, acompanhado de toda a nobreza e muito povo, muito clero, ministros eclesiásticos e seculares da Relação, e outras individualidades, que o acompanharam até ao Campo das Hortas, onde se apeou e a pé dirigiu-se à Porta Nova, onde se tinha instalado um tabelado onde recebeu as vestes pontificais e onde o vereador mais antigo lhe entregou as chaves das portas da cidade.
Daí dirigiu-se à Sé, onde foram observadas as prescrições do Cerimonial dos Arcebispos.
De posse da sua cidade, Dom José de Bragança tomou as providências necessárias para dar aos seus habitantes as melhores condições de sanidade e habitabilidade. Uma das mais prementes necessidades era dar uma boa distribuição de água extensiva a toda a cidade. Seguindo na esteira de alguns dos seus dignos predecessores, como Dom Diogo de Sousa, que encanou a água de uma nascente até à Cónega criando a Fonte de Santiago, e nos Granginhos fez o mesmo com o fontanário que há poucos anos foi desmontado, ou Dom Rodrigo de Moura Telles que explorou e deu água ao Hospital de São Marcos, Dom José, como uma das suas primeiras medidas foi logo no dia 21 de Agosto - um mês após a sua entrada na cidade - "pedir esclarecimentos à Câmara do estado dos muros da cidade e sobre o estado do fornecimento da água" (Livro de Vereações Camarárias de 1737/1748, folha 136).
Deve ter sido a partir daí que na sua mente surgiu a vontade de criar um eficiente, para a altura, abastecimento de água. Tinham sido já descobertos vários mananciais do precioso líquido no hoje lugar das Sete Fontes e em Montariol. Logo, a exemplo do seu irmão, Dom João V, que mandou construir em Lisboa o Aqueduto de Águas Livres, mandou que em Braga, a partir daqueles lugares, se fizesse as necessárias obras de Engenharia Hidráulica para trazer até à sua cidade uma das suas mais prementes necessidades: água potável.
Se bem pensou, melhor o fez, e quase durante perto de duzentos anos foi a água mandada explorar pelo insigne Arcebispo Dom José de Bragança, Príncipe Real, que abasteceu a cidade de Braga.
Se outras obras se lhe ficaram a dever, esta da água foi a mais importante do seu pontificado.
Não queiram os homens de hoje destruir um marco que deu a Braga o título de uma das mais civilizadas e adiantadas terras do País.
Lembremo-nos que Braga, nos meados do século XVIII, já tinha casas que eram abastecidos de água, sem ser necessário recorrer aos fontanários públicos.
Para terminar, um pedido aos responsáveis: salvem, não destruam, um património de engenharia hidráulica, possivelmente único no Pais.


* ASSOCIADO N.' 14 DA ASPA