[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.10.07]

Memória de um dia, já lá vão dois anos...
Eduardo Pires de Oliveira

Um dia, já lá vão mais de dois anos, andava eu em visita de estudo por dois países da Europa Central, desta CEE a que nos deixaram pertencer, e vi quanto tinha perdido em nunca ter aprendido em andar de bicicleta. E vi quanto nós portugueses estávamos a perder por não usar a bicicleta.
Vi que em muitíssimas ruas havia uma via própria para elas; vi que nos grandes jardins, havia caminhos para ciclistas; vi que nas margens dos rios, pequenos ou grandes, e dos canais, havia sempre um passeio para pedestres e outro para bicicletas. Nos rios que atravessavam aldeias ou cidades pequenas e nos rios que cruzavam cidades muito grandes. No centro, na periferia e longe dessas povoações.
Os rios maiores eram sulcados por contínuos barcos de carga e de passeio e as suas águas não me pareciam poluídas. Claro que não vi praias fluviais; mas vi pescadores desportivos.

Vi que nas estações de caminhos-de-ferro ninguém atravessava as vias. Havia sempre passagens subterrâneas; e de um dos lados nunca faltava uma rampa para ajudar a subir ou descer as bicicletas. Mesmo em estações extremamente pequenas!
E vi homens de fato e gravata; e vi senhoras muito bem vestidas; e, junto a escolas, vi miríades de miúdos a chegar ou partir, todos de bicicleta.
E, porque estávamos em tempo de fim de Verão, vi grupos de 10 e mais de 10 homens e mulheres, com idades a que chamaríamos de terceira idade, com os seus sessenta e tantos anos, a sair do comboio na mesma estação que eu e, em alegre conversa, dirigirem-se a um dos compartimentos que eu vira estar cheio de bicicletas. Vi-os a tirá-las, a olharem para os mapas e a dirigirem-se calmamente num determinado sentido.
Mais tarde, encontrava-os no museu que eu ia visitar, depois no convento que fazia parte do meu programa, na igreja a que eu também tinha que ir, no palácio que eu também precisava de ver.

E tantas vezes vi grupos como este que, um dia em que calhou o grupo ter apenas 9 participantes e estávamos todos à espera que chegassem as 14 horas para poder visitar a antiga biblioteca de um convento, lindíssima, do séc. XVIII, um deles chegou-se a mim e perguntou-me quem eu era, se era estrangeiro, e porque é que estava ali. Quando lhe respondi que estava em visita de estudo, numa "peregrinação" pelas possíveis origens do rococó minhoto, ficou profundamente admirado e logo me apresentou ao resto do grupo.
E disse-me que eles formavam um grupo de amigos que era muito mais vasto mas que todas as semanas se reuniam para sair em conjunto para visitar uma pequena cidade, um museu, um monumento, uma festa. Umas vezes vinham um grupo maior, desta vez eram apenas aqueles nove. 
Eram antigos professores, comerciantes, canalizadores, funcionários públicos, mecânicos, bancários, jardineiros, etc., numa grande variedade de profissões. Eram sobretudo amigos.
Almoçavam cedo, saíam com um objectivo bem definido, visitavam o que queriam visitar, a meio da tarde comiam uma fatia de bolo com cerveja ou chá numa pastelaria ou, se estava um dia bonito de sol, compravam os alimentos para os consumir calmamente à beira do rio. E depois voltavam para suas casas. Voltavam contentes por terem passado uma tarde óptima. Por terem visto coisas muito bonitas. Por terem aprendido mais. Por terem ficado ainda mais amigos.

Perguntaram-me por Portugal, se era verdade o que lhes diziam sobre o céu ser tão azul e haver tantos dias com sol forte. E perguntaram-me se havia muitos monumentos e museus. Se as pessoas reformadas se juntavam para de vez em quando pegarem nas suas bicicletas para irem fazer um passeio de recreio como estes que eles faziam. E, claro está, que me fizeram muitas mais perguntas.

E que lhes havia eu de responder? Dizer que éramos uns bárbaros, consumistas dos mais puros e duros; que não respeitávamos a natureza; que não usávamos nem bicicletas nem transportes públicos; que éramos profundamente egoístas porque cada um utilizava o carro só para si; que se quiséssemos transportar a bicicleta no comboio iríamos ter de pagar um bilhete suplementar e que os comboios dificilmente cumpriam os horários; que havia muitos monumentos, muitos deles bonitos, mas que a maior parte não estava devidamente preservada e a maior parte fechada; que o preço de entrada nos museus era praticamente incomportável para as bolsas do cidadão médio; que, ao contrário do que acontecia entre eles, talvez nem um em cada 40 ou 50 monumentos portugueses tivesse um pequenino livro de 8 a 16 páginas com a sua descrição e história; que os reformados portugueses só muito excepcionalmente iam por sua própria iniciativa fazer visitas semelhantes a estas; que vinha de uma cidade em que não interessava uma política séria de transportes públicos e não poluentes; que...; que...; que...

Nos dois meses que andei nesta peregrinação, passei por dois ou três momentos extremamente complicados; e este foi, sem dúvida alguma, um dos mais difíceis. Em geral, apesar de saber do grande atraso em que nos encontrámos frente a esta Europa a que ainda pertencemos, eu sinto um grande orgulho em ser português e bracarense. Mas, desta vez, fiquei profundamente agoniado pelas minhas origens, senti-me pessimamente mal por ter de lhes responder honestamente, falar da forma como a Igreja, a Câmara Municipal e o Estado tratam o nosso pequeno rio, o nosso trânsito, os nossos tão belos monumentos.

Ah! Não expliquei porque é que fixei o facto de o grupo ter nove elementos. É que à porta da biblioteca estava afixado um aviso com os preços; e onde se podia ler que grupos de 10 ou mais visitantes tinham um abatimento substancial. Claro está que me senti muito agradado por eles me terem convidado a pertencer ao seu grupo, apesar da razão que os motivou. E soube-me muito bem a fatia de bolo de maçã que me ofereceram mais tarde, apesar de me parecer ser um bolo "instantâneo".



Associado n.º 7 da ASPA