[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.10.21]

Dos comendadores aos predadores
Miguel Melo Bandeira


Para quem passe em revista a História mais recente da cidade de Braga não pode ignorar figuras como Machado Caires, o Conde de Agrolongo, Manoel Joaquim Gomes, o Comendador Nogueira da Silva e outros, enquanto mecenas que concorreram para o progresso e o bem-estar da cidade de Braga e dos bracarenses. Certamente que se poderiam igualmente citar outros nomes, também eles credores do reconhecimento público. Mas, uma coisa é certa, depois deles, poucos serão os que manifestaram em vida o seu reconhecimento à cidade que contribuiu para o engrandecimento das suas próprias fortunas pessoais, concedendo-lhe benfeitorias à margem dos cargos que exerceram ou independentemente das instituições, que de algum modo representavam.
O que distingue e particulariza as presentes figuras tem por denominador comum um tipo de altruísmo que hoje em dia está praticamente arredado das práticas sociais dos estratos mais abastados da sociedade. Todos estes homens puderam e souberam enobrecer as suas fortunas particulares concedendo à cidade ofertas e mais-valias que lhes sobreviveram, e isto a expensas dos seus próprios pecúlios.
Quem não se questionou em averiguar porque razão se justifica em Braga uma rua chamada do Caires. Esse bracarense do século XIX que ofereceu terrenos junto à estação ferroviária para abrir uma nova artéria na cidade, acrescentando ainda a doação aos maximinenses da antiga escola primária?! Quem não ouviu falar do Conde de Agrolongo que converteu o desamortizado convento do Salvador, ao Campo da Vinha, numa das mais prestigiadas obras de assistência social?! Quem não recorda o protagonista que dinamizou diversos melhoramentos urbanos, com dimensão de serviço público, como são os primeiros transportes públicos de Braga, e nos quais veio a ser incluído o elevador do Bom Jesus?! Quem não se lembra do Comendador que doou um museu à cidade e que construiu um bairro com o seu nome e uma escola para as classes desfavorecidas?!
No entanto, não é nossa intenção, com estes exemplos, fazer a apologia do retorno ao tipo de soluções caritativas, ou de clemência magnânime, como forma de superar as carências actuais que nos afligem. Ou sequer, mesmo, no plano das tradições religiosas que tanto ilustram a nossa cidade, o de sugerir o restauro da prática das indulgências, ainda que de um novo tipo, como modo extremo de expiar a perversão funcional com que hoje em dia se constroem muitas das grandes fortunas. Mais do que a ameaça da crise material que põe em causa a estabilidade social, ou o vazio de valores que se banaliza na convivência das pessoas, o que mais surpreende é mesmo a ausência de uma atitude transcendente perante a própria vida.
Para quem, aqui e acolá, vai ouvindo dizer que Braga é a Roma portuguesa, não pode deixar de sorrir. Não tanto pelo desajuste folquelórico que alguma iconografia publicitária teima ainda em recorrer, mas, sobretudo, pela suprema ironia que assiste ao aplauso da paganização da própria cidade. Hoje em dia, em Braga, não é preciso ser um bom cristão para se perceber que a principal ameaça à imagem de marca da cidade, não está tanto na redução da participação dos crentes nas práticas dominicais, ou sequer mesmo no alastramento do ateísmo e na laicização das práticas sociais, mas tão só, na indiferença com que se encara tudo aquilo que evoque ou contenha algo de espiritual. A este propósito veja-se o exemplo amplamente difundido de se atribuir ao projectado novo Parque Norte, o epíteto de Bom Jesus urbano, comparação que vinda donde vem, não evita que se confunda o novo estádio de futebol com o desígnio de um novo "santuário". O início do século XXI em Braga ficará marcado não, como desde sempre, pela exultante expressão religiosa inscrita na arquitectura de um novo templo, mas tão só pela soberba afirmação pagã de um novo estádio de futebol.
Poderíamos citar outros exemplos, do alastramento da nova idolatria em Braga, manifesto entre outras facetas pelo culto das referências terrenas, traduzidas no instinto da paga pessoal em substituição do sentimento de dádiva à pólis. Há as excepções, é um facto. Mas excluímos desse rol, todos aqueles ilusórios altruísmos que se expressam na quermesse das remunerações imorais aos gladiadores circenses dos nossos dias, ou no esbanjamento calculista do peditório eleitoral, para satisfazer o clientelismo partidário. Dir-se-ia que a solidariedade é uma palavra vã entre os detentores das novas fortunas em Braga. Ainda que questionemos a fórmula, temos mais motivos para acreditar na sinceridade daqueles cujas intenções são as de que a caridade na terra tem a sua compensação no céu, do que aqueles que apenas "dão" para obterem o retorno no exercício do mandato que se segue.
O que é mais preocupante não é tanto o facto das dádivas continuarem ser a fundo perdido. O mais grave é que passaram a ser "dádivas" exclusivamente com um fim pretendido.
Ainda assim, a base da nossa formação cristã obriga-nos a acreditar no arrependimento dos homens e na sua capacidade de regeneração. Como da república autárquica já não há nada a esperar, façamos pois votos, para que os nossos concidadãos mais abastados possam ter a atitude nobre e generosa de imitar alguns dos seus antecessores, os barões do liberalismo, que abriram os cordões à bolsa, e puderam assim oferecer algo aos seus concidadãos. Deixamos aqui um alvitre. Tal como uns quantos recém-nobilitados lisboetas de meados do século XIX tiveram o rasgo de oferecer os terrenos de que eram proprietários para edificar esse oásis que ainda hoje dá pelo nome Jardim da Estrela, possam também alguns dos mais abonados construtores de Braga seguir o seu exemplo e oferecer uns quantos hectares, naqueles locais que toda a gente conhece, para os bracarenses poderem usufruir de uns quantos bons parques de lazer.
Antecipadamente, pensando nas crianças de Braga que não têm jardins, deixamos aqui o nosso bem hajam.

Associado n.º 342 da ASPA

PS: Já agora, a propósito de espiritualidade e solidariedade, foi esta semana anunciado um investimento de 16 milhões de euros destinados a revitalizar o Santuário do Bom Jesus, o mesmo local que, com esse fim, foi aqui classificado pelo Sr. Presidente da Câmara como "um diamante em bruto que precisa de ser lapidado...". Ainda que esta iniciativa fosse desconhecida do público, desde 1995 que vem sendo objecto de "estudos e projectos para uma recuperação global do Monte". Esperemos pois, desta vez, ao contrário do que é habitual em Braga, que os mesmos possam vir a ser amplamente divulgados e discutidos, por ser consensual, tratar-se de "um património cuja preservação é do interesse de todos".