[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.11.04]

Recordando o decorador António Alvim Braga
José Moreira

António Alvim Braga, nome artístico de António Alvim da Silva Braga, poeta da subtileza das cores, decorador profissional, bracarense de gema, homem de sete ofícios e de outras tantas utilidades públicas, mal querido na sua terra natal, nasceu em 2 de Abril de 1911, na freguesia da Cividade.

Braga era, então uma cidade provinciana sem grandes horizontes de progresso e de auto-estima, vivendo habitualmente a sua condição de pequeno burgo, que já tinha sido grande e que, em certo sentido, degustava os restos desse manjar do passado. Habitava-a uma profusão de "bragueses" retintos, o que levantava à simples sobrevivência servidões indesejadas, porque a vida colectiva era manipulada pelo caciquismo então reinante - muito pior e muito mais operoso que o de agora! - que esterilizava quem quisesse para si um destino próprio e uma trajectória digna desse nome. Estou, por isso, a imaginar as batalhas que teve de travar para vencer esse sistema estreito, porque excessivamente partidarizado, restritivo, clientelar, e rasgar essa teia espessa que se lhe opunha e a tentar o lugar possível nessa sociedade de vistas estreitas e de aspirações menores.

O meu encontro com ele situa-se no final da década de 30 do século XX, quando a sua acção começa a sobressair na vida pública e o seu incontestado talento artístico se depura e se desdobra em iniciativas e obras que ficaram a marcar um tempo e um modo bracarense de servir a causa pública. Ultrapassado que foi o caciquismo estreito de um passado recente, era já possível intentar novos voos e novas fronteiras. Essa década possibilitou o aparecimento em cena de uma parelha de nomeada, que há-de deixar inscritas na realidade local acções de enorme repercussão artística e criadora: foram elas, sintetizando muitíssimo, a decisão de se concretizar a Sala Egípcia do Sindicato dos Caixeiros - agora a correr riscos habituais no que ao património respeita em Braga -, a fundação e a criação do Grupo Folclórico Dr. Gonçalo Sampaio, a invenção e a exemplificação concreta dos festejos ao São João Baptista e a Feira da Província do Minho no ano de 1937, fastos ímpares na história local.

José de Faria Barbosa e António Alvim Braga formavam esse dueto memorável, que aglutinava outros generosos jovens de então. Foi o tempo dos "rapazes" - assim denominados pejorativamente pelos bem pensantes da época - que tomaram as rédeas, do que havia de ser uma certeira pedrada no charco da rotina e da prevalência dos interesses instalados sobre o bem público.

Contra a pequenez das aspirações colectivas, tiveram eles o mérito de se libertar das peias que enredavam a acção e, com esta atitude pensada, dispostos a rasgar novos horizontes e perspectivas à comunidade popular bracarense. Não sendo burocratas nem peritos na agitação e propaganda, mas poetas das formas, das cores e das luzes, abriram as portas do já referido sindicato a uma idade de oiro da cultura e do lazer, em forma significativamente popular, traduzidas nas aludidas criações - umas que já passaram, outras que ficaram, embora estejam em perigo iminente de se perderem irremediavelmente.

A parelha desfez-se quando José de Faria Barbosa se ausentou por décadas da nossa cidade. Vemos, no entanto, António Alvim Braga iniciar a sua colaboração com as autoridades distritais ao participar na chefia da delegação do Comissariado do Desemprego, na criação de sindicatos nacionais e casas do povo, nas negociações tendentes à fixação dos primeiros salários mínimos e na redacção dos também pioneiros acordos colectivos de trabalho e na difusão da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho. Actividades esgotantes e continuadas, sempre prestadas com o talento e o entusiasmo voluntarista que já lhe conhecia e apreciava.

Na década de 50, António Alvim Braga opta pela carreira profissional de artista-decorador. Começa, nesse tempo, a desenrolar-se uma série ininterrupta de intervenções criativas de que destaco a direcção dos planos decorativos das festas ao São João, em Braga, nos anos de 1950 a 1957. Mas as suas intervenções excedem as fronteiras bracarenses e dirigem-se a várias outras localidades do Minho e de Portugal. É uma actividade frutuosa que, no entanto, se interrompe em 1957, porque decide emigrar para Luanda, Angola.

Por que emigra António Alvim Braga? Sei que o dominava um sentimento de repulsa por não ser considerado nem remunerado com justiça, dadas a qualidade e a diligência dos serviços que prestava com tão grande lealdade e competência à comunidade bracarense.

Na grande província portuguesa da África Ocidental é acolhido com carinho e pôde ali firmar e desenvolver os seus recursos estéticos e as suas inegáveis qualidades de empreendedor. O que lhe tinha sido negado aqui encontrou-o felizmente na capital de Angola - como era grande o Portugal de então!

António Alvim Braga sabia que os "inimigos nunca mandam flores". Por essa razão, legou-nos um pormenorizado e documentado currículo em que anotou todos os passos que deu na sua vida terrena. Este meu esforço por o tornar presente neste tempo em que os homens parecem que só têm energia para pedir as demissões uns dos outros, esboçando um retrato vivo que dele guardo, procura e encontra nesses documentos alguns dos seus pontos mais altos e objectivos. A rigidez do espaço de que disponho não me permite

voos mais altos e prospecções mais amplas. Estou disposto a esboçar mais do que o formal e frio desfilar dos trabalhos desenvolvidos com apreciável sucesso. Pretendo possibilitar o desfrute completo da alma do poeta das formas, das cores, das luzes, do movimento, que também viveu em comum comigo inquietações, angústias, ansiedades e certezas existenciais e, por elas, dedicamo-nos uma amizade sem mácula, que perdura ainda hoje. As aspirações, os desejos e os projectos propostos em comum permanecem para além do sonho e da própria morte.

Em Luanda, António Alvim Braga encontrou a consideração a que a sua condição de homem tinha legítimo direito e o seu talento criador exigia ser reconhecido. Realizou-se naquela promissora terra de então. Foi esgotante a actividade que desenvolveu não só na capital mas também em outras cidades angolanas, e até na Metrópole quando se realizaram exposições que falavam de Luanda e da Província de Angola. Homem também de amores e de afectos sinceros e entranhados, falava com imensa ternura da "sua" Luanda, até em gestos de puro cariz afectivo, como quando me ofereceu uma notável colecção de fotografias da sua cidade adoptiva, que eu conservo como desvelada forma de lhe assegurar a reciprocidade merecida.

De 1957 em diante, o artista assinou diversos planos de decoração das festas da cidade da capital, de festivais e festas de todo o género, feiras e festividades, arranjos vários, decorações de Natal, dias mundialmente consagrados, exposições, festas carnavalescas, salões de artes plásticas, feiras do livro, recepções a estadistas, concertos de música e poesia.

Esta actividade interrompe-se em 1973, depois de ter merecido tantos prémios e menções diversas, numa autêntica consagração dos seus talentos artísticos. As causas desta interrupção são conhecidas. À Paz Portuguesa sucedeu a desordem endémica das liberdades descontroladas, a ordem foi substituída pela guerra civil e pela fome generalizada. O êxodo dos portugueses de Angola foi então referido com a designação felicíssima e a patética legenda de "retomados". A imagem que retenho desse tempo resumo-a assim: uma família desvairada, envolvida por uma caixotaria precária em que procuravam salvar algo do muito granjeado, olha o vazio de um susto muito grande. Que se seguiu a este delírio destrutivo que tantas vítimas inocentes provocou: uma guerra civil com perto de 30 anos de duração, um morticínio impiedoso de angolanos de todas as condições e idades, o maior espaço territorial de minas anti-pessoal, o que faz das savanas campos de morte e de mutilação irremediáveis, a fome que assola os povos e deixa indefesas e às portas da morte as crianças.

António Alvim Braga presenciou toda esta tragédia que se abateu sobre um povo, lamentou todo este retomo imerecido de centenas de milhares de compatriotas se chorou sobre os destroços civilizacionais perdidos. O quadro dantesco do regresso precipitado de tantos e tantos, os espólios perdidos, a tragédia vivida em nome de quê? Subitamente, arrastados para uma situação já consumada e profundamente desumana. Já não haveria lugar para mais decorações festivas ou jogos florais ou exposições ou cortejos. Agora só o festival do ódio e do racismo resumia a criatividade dos vencedores. Para nada serviram os serviços prestados lealmente. Já não havia lugar para os prémios, os galardões e os louvores. Tudo a "independência" sepultou na vala-comum das inutilidades. Valeu a pena a troca? Acham alguns que sim! Deus lhes perdoe...

António Alvim Braga retomou à Metrópole no ano de 1977, depois de 20 anos de serviço activo como decorador, gastos naquela terra perdida para o sonho. Instalou-se na Póvoa de Varzim, onde o mar talvez lhe permitisse o sonho impossível de ver reiniciar-se a rota dos descobrimentos! Não quis nada com a sua terra natal, madrasta de outras sagas.

Reli agora páginas sinceríssimas, que me pareceram pétalas desfolhadas de um poema da sua vida, que intitulou "Quadros de uma noite de Natal". Nelas entrevi a fidelidade paradigmática às origens humildes de que provinha e de que nunca se afastou fossem quais fossem as provações a viver. Sempre que se deslocava a Braga, ia-me visitar à "Editora Pax", onde celebrávamos um colóquio aberto e sem fronteiras sobre o que estava em jogo nos destinos do mundo. Horas que recordo com profunda saudade e gratidão. Este bracarense ilustre, modesto, autodidacta de traço fino e inspirado, imaginação fervilhante e voltada para a acção, é praticamente um desconhecido neste tempo de crise fundíssima dos valores nacionais e patrióticos. Ninguém se interessa por uma obra que tem sempre uma duração volátil no tempo, que esbate as emoções de um dado momento, mas não pode, pela sua própria natureza, fixar-se, porque já não corresponde a outra emoção estética de tempos acumulados e diversos. Procurei recordá-lo com precisão, para que o futuro não me inscreva no rol larguíssimo dos que se esqueceram que ele existiu.




Associado n.º 173 da ASPA


António Alvim Braga