[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.11.18]

Pouca terra... pouca terra...
Miguel Melo Bandeira


Sempre que desaparece uma referência da nossa memória colectiva algo de profundo morre em nós. Por insignificante que seja, quebra-se um elo da cadeia frágil que nos une. A comunidade a que pertencemos fica mais pobre.
Esse pode ser o caso da demolição anunciada da centenária estação ferroviária de Tadim, na linha do Minho. Uma vez mais à revelia da população, tal como vem acontecendo com todos nós, que nos afundamos lentamente na legitimidade venenosa da democracia apática que vivemos, os nossos concidadãos de Tadim foram colhidos de surpresa, não pelo inadvertido rolar de uma locomotiva sobre os carris, mas pela menorização com que foram tratados, por alguém lhes ter negado a informação de que iriam ficar sem a sua estimada estação ferroviária. Tadim prepara-se, pois, para ficar privada de um testemunho da sua identidade colectiva, sujeitando-se a perder um elemento marcante da sua própria fisionomia enquanto povoação identificável.
Quem se preocupa com a angústia daquele que se lamenta por não saber o que vai sentir quando olhar lá para baixo e deixar de poder ver o edifício que acompanhou as memórias da sua meninice, a meta das correrias que fez para apanhar o comboio, o cais de onde tantas vezes se despediu ou pôde receber os seus entes queridos.... É verdade, não são danos que se possam avaliar em euros, por isso não têm valor numa sociedade cada vez mais condicionada pelos ditames do dinheiro.
Mas será que os sentimentos das pessoas não tem valor?! Que não cabem nas razões do argumentário económico?! Será que os sentimentos colectivos já nada têm a ver com os instrumentos político-democráticos?!
Não! Não se tratam de nostalgias saudosistas. É um facto que é inquestionável a duplicação do ramal ferroviário de Braga. Aliás, só o inexplicável justifica o facto de, até agora, ainda não o terem feito. Mas não será que, a REFER, a entidade que dirige as infra-estruturas ferroviárias no País, caso tivesse tido a inteligência de consultar a população de Tadim, poderia ter encontrado uma solução a contento de todos?! Fez-se ou não se fez algum esforço para se encontrar uma solução inteligente?! Será que se intentou chegar a um compromisso?! Porque razão é que as contingências do alargamento presumem a poupança dos terrenos livres marginantes, sacrificando para isso o velho monumento de 127 anos?! Serão somente critérios de natureza técnica?! Ou serão outro tipo de razões, mais obscuras, iguais aquelas que hoje em dia teimam em ser cada vez mais determinantes?!
Todavia, mais grave do que o património ferroviário que se perde, é o respeito que se perde pela vontade das pessoas e até por nós próprios. É o vazio que sobra, sempre que se sonega o direito das pessoas de participar na definição do seu próprio futuro. Afinal de contas, não é esse o principal monumento da nossa cultura que importa conservar?!
Se a velhinha estação ferroviária de Tadim vier abaixo, estaremos perante mais um daqueles exemplos que explicam porque é que os cidadãos, cada vez em maior número, mostram desconhecer a utilidade em se aproximar das urnas eleitorais.
Como testemunhava o escritor José Cardoso Pires, quando se perde a memória, perdem-se os afectos, perde-se o apego e a compreensão mútua entre as pessoas.


Associado n.º 342 da ASPA

PS: Como um mal nunca vem só, corre agora por aí o rumor de que o núcleo museológico da estação ferroviária de Braga, também ele se encontra ameaçado ou, no mínimo, em risco do seu espólio vir a ser retirado da cidade. Se tal notícia se vier a confirmar, esta será mais uma prova irrefutável que confirma os crescentes sinais de decadência da influência política de Braga.