[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.12.02]

O livro como meio de defesa e força de defesa e de conservação do objecto patrimonial
José Moreira

O conhecimento do valor e da dignidade do património construído e cultural, tem-me proporcionado a possibilidade de descobrir trilhos em que aquele se desenvolve e se desmultiplica.

Avulsamente, a propósito de mais um atentado e/ou uma destruição, vou penetrando pela floresta imensa do que importa não só à preservação patrimonial, como acto de civismo civilizacional e forma legítima de a defender e de o esclarecer, mas também à sua dignificação estruturante.

Dou-me a deixar decorrer perante os olhos da minha memória o filme rodado nos anos cinquenta do século XX, quando a Mocidade Portuguesa buscava conseguir uma casa para nela instalar a sua sede. A nossa atenção recaiu sobre o prédio da rua de Santa Margarida, onde funcionou a Casa da Mocidade e está agora instalada a delegação de Braga do Instituto Português da Juventude.

Aquele prédio foi construído de raiz, por decisão e legado do conhecido benemérito Conde Ferreira para nele funcionarem escolas primárias com residências para professores. E assim foi durante muito tempo. Haveria um excesso de edifícios escolares na cidade de Braga que justificasse a sua alienação? Penso que não! Mas tal não obstou a que o farto imóvel estivesse então a ser utilizado como celeiro pela Federação Nacional dos Produtores de Trigo.

O fundamento das razões que o referido benemérito invocou para doar o móvel ao estado são para mim profundamente respeitáveis, bem como o seu objecto essencial. Não compreendo que o Estado, mesmo dizendo-se, mas não sendo, pessoa de bem, aliene a seu bel-prazer não só um soberbo edifício, mas o seu objecto essencial. Que garantias são dadas à conservação do seu objecto patrimonial, que possam incitar outras doações patrimoniais em regime de mecenato, tão necessárias do desenvolvimento cultural e ao justo alargamento de actividades de interesse público?
O doador, no caso concreto, não estava já entre nós para defender a sua doação dos ataques de quem carecia de um espaço para se instalar, motivo por que, parece-me, o Estado, como destinatário do bem, deveria ser o intransigente defendor daquele título e não, pelo contrário, o esbanjador distraído e indiferente do acto generoso que constituiu a doação.

Naquele momento, e porque tinha de se conseguir uma justificação que pusesse fim aos receios entretanto instalados nos espíritos e nas consciências dos que tinham de arranjar uma saída, recordo-me de ter criado uma fórmula simples, que serviu de pretexto a que a Mocidade Portuguesa entrasse na posse, a título precário, do notável edifício: "A Mocidade Portuguesa é, em certo sentido, um prolongamento da acção escolar e vive em intensa colaboração com aquela e, por esse motivo determinante, não se verificava qualquer usurpação do objecto da doação. Havia um como que natural prolongamento daquele novo objecto". Espantou-me que não tivesse surgido qualquer herdeiro do Conde Ferreira que fizesse a denúncia e obstasse à alienação.

Um livro de que é autor o investigador Eduardo Pires de Oliveira: O Recolhimento de Santa Maria Madalena e São Gonçalo, ou das Convertidas (Braga), provocou-me esta evocação do tempo passado. Aquele volume, editado pelo Governo Civil de Braga, sendo seu titular o dr. José Marcelino Pires, coloca diante de nós a dignidade de um monumento que é forçoso preservar e de um destino que é urgente e imprescindível conservar.
Aquele livro foi apresentado na sua excelentemente conservada capela, no passado dia 8 de Março último, perante um público interessado em questões patrimoniais, que saiu convencido das razões a que o seu distinto autor, depois de estudar e de considerar o imóvel construído no período de ouro bracarense e que se encontra, apesar dos estragos no tempo decorrido, em estado mais puro e de boa conservação.

Também ele se deve a uma dádiva pessoal de D. Rodrigo de Moura Teles, arcebispo primaz (1704-1728), com um fim preciso, que a ninguém é lícito alterar em homenagem aos princípios éticos já suficientemente desenvolvidos ao longo desta crónica.

O gracioso volume volta a colocar em relevo as excepcionais qualidades de investigador de Eduardo Pires de Oliveira que, incansavelmente, nos vem revelando o produto dos seus estudos com a segurança documental desejada. Apesar das dificuldades que vai encontrando, este autor vai-nos fornecendo livros imprescindíveis para o estudo da história da cidade de Braga, a partir da sua intervenção bem mais rica do que era antes.
Neste de que estamos a ocupar-nos, Eduardo Pires de Oliveira, um também denodado defensor da dignidade do património, sócio fundador da ASPA, não só o defende em si, mas pretende fazer doutrina sobre a obrigatoriedade de lhe conservar o objecto patrimonial inicial.

Nunca visitei aquele Recolhimento, pessoal e materialmente. A minha curiosidade não passou da bela capela, notável testemunho setecentista que, com desvelados critérios de restauro, pode vir a ter o pleno esplendor. Mas este livro fez-me conhecer o edifício, rasgar-lhe as perspectivas, conviver com os seus recantos mais íntimos, verificar-lhe as proporções, adivinhar-lhe o sol que o acaricia, enternecer-me com os sonhos que humanamente ao longo de séculos atravessaram os seus residentes, as peripécias que viveram as confrarias, os documentos que também são agora meus porque foram trazidos à luz clara do dia.
Belíssima missão a que se devotou o autor com carinhosa, operante e conseguida actividade intelectual.

Ficou patente, quando da apresentação pública do livro, a convicção de que entre o pensamento de Eduardo Pires de Oliveira e a vontade do governador civil havia uma feliz conexão, que garantiria o futuro previsível do destino do monumento, apesar de tudo ainda não classificado pelo IPPAR, ao menos como Imóvel de Interesse Público.
A conservação do objecto patrimonial fixado quando da doação do edifício estaria assim assegurado.

Havia que lhe fixar os contornos, escolher as pessoas que deveriam integrar a comissão que devia dar parecer e zelar pela pureza do feliz restauro, que o próprio autor sugere, nas considerações finais, como esboço apetecível: um gestor habituado a trabalhar em centros históricos, um arquitecto especializado na recuperação de edifícios conventuais, um historiador de arte do período barroco e um especialista de história de mulheres do mesmo período.
As vicissitudes da alternância política não devem pôr em causa o que devia ser sempre acção planificada e não caprichismo ocasional. A dignidade do património exige esse plano e recusa o caprichismo, decididamente.

Ao passante distraído daquele lanço da Avenida Central esta problemática interessa sobremaneira. Não estamos diante de um velho edifício a pedir reforma, mas de um vetusto monumento a pedir intervenção arrojada, sustentada e finalidade clara.

Uma última palavra para relevar o belíssimo arranjo gráfico do livro da autoria de Luís Cristóvam e o bom documentário fotográfico que patenteia, o que mais o valoriza.




Associado n.º 173 da ASPA

Convento das Convertidas
Convento das Convertidas
(Braga, Av. Central)