[Publicado do "Diário do Minho" de 2002.12.16]

Escola de S. João do Souto: uma identidade viva da cidade
Ana Maria Macedo


As comemorações do 118º aniversário da Escola EB 1 S. João Souto constituem naturalmente um acontecimento de referência da vida da cidade de Braga e das suas gentes. É a escola que o afirma e demonstra nas suas actividades comemorativas, mas é também a cidade que com ela vive e sente essa identificação. Veja-se a exposição intitulada "O mesmo espaço...o que mudou?" para reconhecermos que, hoje em dia, o mesmo local de traça histórica, dá continuidade à criação, em 1884, da "Escola de Instrução Primária de S. João do Souto". A fundação desta Instituição, que iniciou as actividades lectivas no ano de 1985/86, insere-se no âmbito da primeira fase dos projectos camarários destinados a esse fim, constituindo, como nos elucida M. Bandeira (2001), um ciclo de projectos camarários de construção de raiz de escolas do ensino primário em Braga e que compreendia na cidade: a Escola de S. Lázaro, no gaveto da rua das Águas (tramo da actual Avenida da Liberdade) com a actual rua do Raio, de Abril de 1882; a Escola da Sé, entre as Carvalheiras e a rua Frei Brandão (actual sede da Junta), de Setembro de 1887; a Escola de S. Vítor, na Rua de Santa Margarida (actual espaço do IPJ), de Janeiro de 1889. Além destas, foram ainda edificadas neste período as Escolas de S. Vicente, inaugurada em 1874, no largo de Santa Teresa (actual Univ. Católica), e a de Maximinos, na rua do Caires (poente), de 1882, neste caso, ambas resultantes da acção mecenática, respectivamente de Conde Ferreira e do Comendador Machado Caires.
A Escola de S. João do Souto, sempre fiel ao local onde fora criada, foi sendo objecto de sucessivas e frequentes remodelações e obras de reabilitação, de que se destacam os trabalhos efectuados em 1914. Em 1965, chegou a dispor de um anteprojecto de reconstrução do edifício da autoria do arquitecto municipal J. Cortez Marques, de feição modernista, que assentava nas novas linhas da arquitectura escolar então em voga, das quais temos por testemunha a as Escolas Carlos Amarante e D. Maria II. No entanto, este projecto não teria seguimento por se encontrar condicionado pela área de protecção dos monumentos nacionais com ela confinantes. Assim a Escola pode manter a traça antecedente, embora tivesse sido objecto de profundas remodelações e arranjos no seu interior quando corria o ano de 1974.
À presente particularidade, junta-se uma outra, não menos importante sob o ponto de vista do seu singular contributo para reconstituição das histórias de vida e da memória da nossa comunidade. Referimo-nos ao seu arquivo histórico, um notável acervo documental que, ainda que não seja extenso, tem a virtude de remontar aos primórdios da sua fundação, encontrando-se num excelente estado de conservação. Como sabemos, toda a gama diversificada de documentação, produzida e executada no quotidiano de uma escola (como de outras instituições) ao longo dos anos, fornece-nos importantes e insubstituíveis informações sobre percursos de vida da instituição e dos membros que a foram integrando. Referimo-nos aos documentos que compõem o arquivo histórico de uma escola, como sejam: os livros dos sumários; os processos individuais dos alunos, professores ou funcionários; os livros de registo de correspondência expedida e recebida; os livros de actas dos conselhos de turma, dos conselhos disciplinares, dos órgãos de gestão; os registos biográficos e de matrícula; a relações de despesas e pagamentos; enfim, um sem número de "fontes", tanto mais valiosas quanto mais se alargam no tempo, preservam o seu estado de conservação e permitem o seu manuseamento. Infelizmente, porém, esta importante fatia do nosso património comum ocupa ainda hoje um lugar nitidamente subalterno no funcionamento da grande maioria das nossas instituições escolares. Nestas, a documentação que não é habitualmente usada, inúmeras vezes é votada a um acondicionamento em pequenos espaços, sem condições de manuseamento e protecção, não raras vezes na cave ou no sótão dos edifícios, precisamente os locais mais sujeitos à acção da humidade e das condições inóspitas de arejamento e temperatura. Assiste-se ainda não raro à prática da subtracção individual de documentos, que se torna facilmente despercebida e é muitas vezes sustentada na indesculpável motivação da recolha de "curiosidades".
Só em casos pontuais encontramos alguém dedicado e empenhado na conservação destes documentos, como é o caso exemplar seguido na Escola de S. João do Souto. Aqui não só se impede que a perda da nossa memória colectiva - que é um acto irreparável - se mantenha e prossiga, como se reconhece na preservação desse património um recurso didáctico vivo, aplicável ao reforço da identidade e da afirmação comunitária da Escola. Esta finalidade educativa constitui um dos pilares da formação cívica e da construção de laços de cooperação dos seus alunos, futuros cidadãos .
Face ao crescente cenário de tercizarização das actividades existentes e ao tendencial envelhecimento das populações no centro histórico de Braga, a presença das crianças e a sucessão dos seus testemunhos é talvez um dos mais importantes contributos para o rejuvenescimento e revitalização da cidade.
A Escola de S. João de Souto está em festa - que o testemunhem as crianças envolvidas nas múltiplas actividades programadas para esta semana - e é à memória dos seus 118 anos, tão vivos e presentes, que dirigimos também as nossas felicitações!


Associada n.º 314 da ASPA